Archive for the ‘Política ambiental’ Category

8º Congresso de Extensão Universitária da UNESP

O Congresso de Extensão Universitária da UNESP visa compartilhar com a sociedade paulista uma parte das nossas melhores práticas extensionistas no sentido da ampliação da troca de conhecimentos e saberes sistematizados entre a Universidade, a Comunidade e as diversas esferas do poder público, visando assim otimizar a efetividade da transferência de conhecimentos disponíveis no meio acadêmico à sociedade. E foi realizado a 8º edição quinta-feira dia (01/10) nas Unidades Universitárias em: Araçatuba, Araraquara, Assis, Bauru, Botucatu, Franca, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Jaboticabal, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, São José do Rio Preto, São José dos Campos e São Paulo. E  nos Campus Experimentais: Dracena, Itapeva, Ourinhos, Registro, Rosana, São João da Boa Vista, Sorocaba e Tupã. Os trabalhos puderam ser inscritos via SITE DO EVENTO e deveriam ser inseridos em três diferentes eixos:

 

Eixo 1 – “Direitos, Responsabilidades e Expressões para o Exercício da Cidadania” (inclui as áreas de: Comunicação, Cultura, Direitos  Humanos, Educação, Política e Economia).

Eixo 2 – “Os Valores para Teorias e Práticas Vitais” (inclui as áreas de: Meio Ambiente, Saúde e Ciências Agrárias e veterinárias)

Eixo 3 – “Novas Tecnologias: Perspectivas e Desafios” (inclui as áreas de: Tecnologia, Trabalho, Espaços Construídos, Geração de Renda e Tecnologia Social)

A organização dos 3 eixos temáticos teve como modelo o II Congresso da AUGM.

 

 O CPEA ganhou com o trabalho “Possibilidades para o uso do audiovisual como ferramenta pedagógica em assentamentos rurais” dentro da temática 2. Os trabalhos premiados em todas as unidades podem ser consultados AQUI.

 

Ética a partir do aquecimento global

 

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor

 

 

Artigo publicado no site da Adital : <http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=75502>

Em alguns lugares da Terra se rompeu, há dias, a barreira dos 400 PPM de CO2, o que pode acarretar desastres socioambientais de grande magnitude. Se nada de consistente fizermos, podemos conhecer dias tenebrosos. Não é que não podemos fazer mais nada. Se não podemos frear a roda, podemos; no entanto, diminuir-lhe a velocidade. Podemos e devemos nos adaptar às mudanças e nos organizar paraminorar os efeitos prejudiciais. Agora se trata de viver radicalmente os quatro erres: reduzir, reutilizar, reciclar e rearborizar.

Precisamos de uma orientação ética que nos ajude alinhar nossas práticas na superação da crise atual. Nesse quadro dramático, como fundar um discurso ético minimamente consistente que valha para todos?

Até agora as éticas e as morais se baseavam nas culturas regionais. Hoje na fase planetária da espécie humana precisamos refundar a ética a partir de algo que seja comum a todos e que todos a possam entender e realizar.

Olhando para trás, identificamos duas fontes que orientaram e ainda orientam ética e moralmente as sociedades até os dias de hoje: as religiões e a razão.

Asreligiões continuam sendo os nichos de valor privilegiados para a maioria da humanidade. Elas nascem de um encontro com o Supremo Valor, com o Sumo Bem. Desta experiência nascem os valores de veneração, respeito, amor, solidariedade, compaixão e perdão. Muitos pensadores reconhecem que a religião mais que a economia e a política é a força central que mobiliza as pessoas e as leva até a entregar a própria vida (Huntington). Outros chegam até a propor as religiões como a base mais realista e eficaz para se construir “uma ética global para a política e a economia mundiais” (Küng). Para isso as religiões devem dialogar entre si. No diálogo acentuar mais os pontos em comum do que os pontos de diferenciação. Com isso pode se inaugurar a paz entre as religiões. Esta paz não se basta a si mesma; mas, deve animar a paz entre todos os povos.

Arazão crítica, desde que irrompeu, quase simultaneamente em todas as culturas mundiais, no século 6ª a. C. no assim chamado tempo do eixo (Jaspers), tentou estatuir códigos éticos universalmente válidos, baseados fundamentalmente nas virtudes, cuja centralidade ocupava a justiça. Mas afirma também a liberdade, a verdade, o amor e o respeito ao outro.

A fundamentação racional da ética e da moral –ética autônoma- representou um esforço admirável do pensamento humano, desde os mestres gregos Sócrates, Platão, Aristóteles, passando por Immanuel Kant até os modernos Jürgen Habermas, Enrique Dussel e entre nós Henrique de Lima Vaz e Manfredo Oliveira entre outros de nossa cultura.

Entretanto o nível de convencimento desta ética racional foi parco e restrito aos ambientes ilustrados. Por isso, com limitada incidência no cotidiano das populações.

Esses dois paradigmas não ficam invalidados pela crise atual, mas precisam ser enriquecidos se quisermos estar à altura dos desafios que nos vêm da realidade hoje profundamente modificada.

Para isso enriquecer precisamos descer àquela instância na qual se formam continuamente os valores, conteúdo principal da ética. A ética, para ganhar um mínimo de consenso, deve brotar da base comum e última da existência humana. Esta base não reside na razão, como sempre pretendeu o Ocidente.

A razão –e isso é reconhecido pela própria filosofia- não é nem primeiro nem o último momento da existência. Por isso não explica tudo nem abarca tudo. Ela se abre para baixo de onde emerge, de algo mais elementar e ancestral: a afetividade e o sentimento profundo. Irrompe para cima, para o espírito, que é o momento em que a consciência se sente parte de um todo e que culmina na contemplação e na espiritualidade. Portanto, a experiência de base não é “penso, logo existo”, mas “sinto, logo existo”. Na raiz de tudo não está a razão (“logos”), mas a paixão (“pathos”) que se expressa pela sensibilidade e pelo afeto. Daí o esforço atual de resgatar a razão sensível e cordial (Meffesoli, Cortina). Por este tipo de razão captamos o caráter precioso dos seres, aquilo que os torna dignos de serem apetecíveis. É a partir do coração e não da cabeça que vivenciamos os valores. E é por valores que nos movemos e somos. Em último termo, está o amor que é a força maior do universo e o nome próprio de Deus. Essa ética nos pode engajar em práticas para enfrentar o aquecimento global.

Mas temos que ser realistas: a paixão é habitada por um demônio que pode ser destruidor. É um caudal fantástico de energia que, como águas de um rio, precisa de margens, de limites e da justa medida. Caso contrário, irrompe avassaladora.

É aqui que entra a função insubstituível da razão. É próprio da razão ver claro e ordenar, disciplinar e definir a direção da paixão.

Eis que surge uma dialética dramática entre paixão e razão. Se a razão reprimir a paixão, triunfa a rigidez e a tirania da ordem. Se a paixão dispensar a razão, vigora o delírio das pulsões do puro desfrute das coisas. Mas, se vigorar a justa medida e a paixão se servir da razão para um autodesenvolvimento regrado, então pode surgir uma consciência ética que nos torna responsáveis face ao caos ecológico e ao aquecimento global. Por ai há caminho a ser percorrido. Para um novo tempo, uma nova ética.

Assentamentos de reforma agrária: oportunidade/possibilidade para as novas gerações.

Foto de Edson Silva/Folhapress

Foto de Edson Silva/Folhapress

Alex Arbarotti

Mestrando Sociologia UFSCar/Bolsista FAPESP

Muitas vezes os assentamentos de reforma agrária são questionados sobre sua viabilidade no sentido de não proporcionarem sustento nem mesmo às famílias que neles moram. Entretanto, a despeito das informações deprecativas e da sistemática diminuição de investimentos do poder público nesses projetos de assentamentos eles veem se demonstrando como local de produtividade e oportunidade/possibilidade para as novas gerações como noticiado em duas reportagens da Folha de São Paulo.

A primeira reportagem afirma que o movimento de retorno ao campo é perceptível em todo país nos últimos anos[i]. E a segunda reportagem traz à cena a realidade de retorno de filhos e netos de assentados da cidade para os assentamentos[ii].

Na primeira reportagem Vera Botta Ferrante afirma que a volta do jovem, e em alguns casos os que permaneceram, contribui para trazer novas ideias, nesse sentido ela traz o caso de um rapaz que queria montar uma gráfica para produzir rótulos dos pães e bolos produzidos no Assentamento Bela Vista na cidade de Araraquara – SP.

Bernardo Mançano Fernandes afirma, na segunda reportagem, que a volta das novas gerações tem ocorrido em assentamentos de todo país. Segundo ele isso ocorre como resultado do alto custo de vida nas cidades e em contrapartida o aumento da infraestrutura nos assentamentos, bem como as políticas públicas de incentivo a agricultura familiar.

É nesse sentido que Elisa Guaraná Castro (2008) diz que os estudos sobre juventude no campo deve superar a categoria ficar e sair como uma categoria concreta ou um movimento definitivo dos jovens, pois essas abordagens acabam não percebendo outros elementos nas múltiplas formas de vivencias que são apresentadas na dinâmica social destes jovens e as novas formas de se relacionarem com a terra. Isso é importante, porque como visto na reportagem é cada mais recorrente encontrar jovens, filhos e netos de assentados, que vem afirmando que querem assumir o projeto de assentamento, mas em uma nova perspectiva, realizando um reordenamento da imagem e do dito ethos do camponês tradicional (CASTRO, 2008).

Assim, é possível afirmar que os assentamentos são espaços de oportunidade/possibilidade para as novas gerações em relação às representações de múltiplos vividos e construções de identidades e subjetividades em um processo de construção de sentidos individuais, coletivos, culturais e históricos na criação e recriação cotidiana (MARTINS, 2010). Entretanto ainda faltam políticas públicas sérias e investimentos para que esses espaços possam se tornar cada vez mais espaços de trabalho digno, moradia boa e produção rentável e sustentável.

 

Referências

CASTRO, E. G. As jovens rurais e a reprodução social das hierarquias: relações de gênero em assentamentos rurais. In: FERRANTE, V. L. B. WHITAKER, C. A. (org) Reforma agrária e desenvolvimento: desafios e rumos da política de assentamentos rurais. São Paulo: UNIARA, 2008.

MARTINS, J. S. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala. São Paulo: Contexto, 2010.

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[i] “Movimento de retorno ao campo se repete no país, afirma docente”. Folha de São Paulo. 17 de novembro de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/1186862-movimento-de-retorno-ao-campo-se-repete-no-pais-afirma-docente.shtml

[ii] “Filhos e netos de sem-terra deixam cidade e voltam para o campo”. Folha de São Paulo. 17 de novembro de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/1186860-filhos-e-netos-de-sem-terra-deixam-cidade-e-voltam-para-o-campo.shtml

Temos que defender nossa terra e nosso rio!

Alex Arbarotti

O problema fundiário no Brasil se arrasta á décadas. Mas, nos últimos tempos temos um aumento dessa pressão fundiária que abarca não só a terra, mas também os rios e o uso das águas  Esse não é um problema solucionado, apesar de não ganhar os holofotes da mídia. Em 2011 foram 14410615 áreas de conflitos por terra ou pela água no Brasil. Esses conflitos envolveram 82706 famílias e ocorreram 29 assassinatos  (fonte: cpt nacional). Esses conflitos estão ocorrendo porque o Estado tem uma opção clara de favorecimento de grandes investidores em detrimento dos pequenos e tradicionais proprietários e usuários dos rios.

É notável, porém que esse não é um cenário exclusivo do Brasil, mas de toda Latino América. O vídeo postado aqui denuncia isso. A ação desrespeitosa do governo que “abusa de quem não têm mais arma que sua pobreza!”

Urge uma articulação em toda latinoameica contra essas ações que crescem a cada dia!

Não deixe de ver o vídeo e de se revoltar!

Irmã Dorothy Stang, um sorriso que contagia

Antônio Canuto                                                                                                                                                                                                                               Secretário da coordenação nacional da CPT

O assassinato de Ir. Dorothy Stang, no dia 12 de fevereiro de 2005, na área onde se desenvolvia um projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), o PDS Esperança, que aliava a produção familiar com a defesa do meio ambiente, como a missionária propugnava e defendia, provocou uma gigante onda de indignação nacional e internacional. Qual uma verdadeira tsunami, esta tragédia invadiu o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Tomou conta das redações dos jornais e dos estúdios das TV’s e das rádios. E seus abalos se sentiram em todo o mundo. A pequena e desconhecida Anapu passou a ocupar um lugar de destaque na geografia mundial.

Os envolvidos na morte da missionária foram presos, julgados e condenados, fato incomum no Pará. O último julgado, cinco anos depois do assassinato, Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como “Taradão”, foi condenado em maio de 2010, a 30 anos de prisão, como um dos mandantes do assassinato. Dezoito dias depois de sua condenação, uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, lhe concedeu habeas corpus pondo-o em liberdade. O que não é incomum no estado.

Outras medidas governamentais anunciadas no ambiente da repercussão da morte de Irmã Dorothy não foram implementadas ou o foram só parcialmente, de tal forma que as tensões e conflitos continuam. No mês passado, janeiro de 2011, assentados do PDS Esperança bloquearam as estradas que dão acesso à área, para impedir a retirada ilegal de madeira, mostrando a ausência e inoperância dos órgãos públicos que deviam garantir o cumprimento das normas legais. Pior que isso. Madeireiras envolvem e cooptam organizações de trabalhadores e, para atingir seus objetivos, jogam trabalhadores contra trabalhadores.

Mas, apesar de tudo, Dorothy continua presente. Passados seis anos, o que impressiona é que sua presença, antes confinada a Anapu, multiplicou-se. A irradiação do seu sorriso contagia pessoas no mundo todo. Sua morte irrompeu com a força da ressurreição. Sua ação, humilde e desconhecida, pequena e quase isolada, expandiu-se por todos os cantos do Brasil, conquistando corações e mentes e ganhou as dimensões do mundo. Dom Erwin Kräutler, o bispo do Xingu, em cuja diocese Dorothy exercia seu trabalho pastoral, disse na missa do quarto aniversário de sua morte: “O sangue derramado engendrou uma luta que nunca mais parou. Sepultamos os mártires, mas o grito por uma sociedade justa e pela defesa do meio-ambiente tornou-se um brado ensurdecedor.”.

Hoje a voz de Dorothy se soma às vozes que se levantam para defender o Xingu contra a sanha desenvolvimentista que quer construir a hidrelétrica de Belo Monte, com  todas as consequências nefastas que decorrem desta obra e em defesa dos povos que do rio dependem e da beleza e da riqueza da biodiversidade lá existentes.

Fonte: Comissão Pastoral da Terra

http://www.cptnacional.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=552:irma-dorothy-stang-um-sorriso-que-contagia&catid=15:artigos&Itemid=59

A ridícula lei da sacolinha.

Pedro Meinberg

 

Desde o dia 25 de janeiro entrou em vigor uma das leis mais medíocres que considero ter conhecimento desde quando me entendo por gente: a proibição do uso de sacolas plásticas nos supermercados do estado de São Paulo.

 

O discurso a favor da lei é que se reduzirão os danos ao meio ambiente, pois há muito gasto de energia para produzir sacos plásticos e seu material não é nada reciclável. Assim, vende-se a ideia de que retirá-los dos caixas, cada cidadão estará fazendo, mesmo que obrigado, a sua parte para salvar o planeta. Nada mais falacioso que isso!

 

Um saco plástico que uso todos os dias não irá salvar meio ambiente algum. Se toda a população paulista, brasileira, planetária, universal se apropriar de uma sacolinha por dia, não irá nos salvar da desgraça ambiental anunciada (se é que ela um dia virá). No meu caso, particularmente, e com certeza também é o de mais uma boa parte da população, não reduzirei o consumo de plástico algum, pois a sacolinha que todo dia eu pegava no mercado eu a reaproveitava para os cestos de lixo da cozinha e banheiro de minha casa. Agora, eu que nunca comprei sacos plásticos de lixo (aqueles pretos ou azuis), terei que comprá-los para depositar meu lixo diário produzido nesses cômodos.

 

A lei, desta forma, pode fomentar um consumo pelo outro – isso para não falar do dinheiro que agora gastaremos para adquirir sacos plásticos de lixo. Mas mais do que isso, ela quer induzir o cidadão e a cidadã comum, que rotineiramente vai aos supermercados a acreditar que a medida está salvando o planeta Terra. Não está.

 

Se quisermos reduzir os danos ambientais, que se façam leis proibindo grandes indústrias como Coca-cola e Elma Chips, só para citar, deixarem de produzir suas latinhas e embalagens. Um lanchinho da tarde, com um refrigerante e um salgadinho chips, pode proporcionar mais desgraças que uma mera sacolinha reaproveitável. Indo mais além, se quisermos mesmo salvar o planeta, vamos mudar radicalmente nossos hábitos diários, consumir menos produtos diretamente ligado à industria pesada das grandes corporações multinacionais e induzir a falência de empresas que realmente destroem o planeta. Ademais, enquanto isso no senado, circula o ruralista novo Código Florestal, ainda distante da preservação da biodiversidade brasileira.

 

Eu, especificamente, estudo um processo de “psiquiatrização da vida” que vem ocorrendo nas sociedades ocidentais, quando hoje, quase todo comportamento desviante é considerado patologia mental. Assim, não pensamos isso, pois a questão está demasiadamente naturalizada em nós, mas cada medicamento para insônia, por exemplo, que tomamos, incentivamos uma gigantesca bioeconomia de escala mundial, com seus grandes laboratórios poluidores – e toda sua maquinaria industrial, construída em detrimento de minérios e outros elementos naturais – a produzir no ritmo do capital pílulas para “aliviar” os mais novos transtornos e sintomas da alma; inquietações que são frutos do mesmo ritmo frenético capitalista que enlouquece e enfraquece o indivíduo; mesmo ritmo industrial que sucumbe os recursos naturais e o bioma planetário.

 

Dito, enquanto não existir mudanças radicais nos padrões de consumo (do supermercado à farmácia, do shopping ao posto de gasolina), enquanto não nos propusermos, por uma outra ética, a resistir à ética consumista e compulsiva do tempo presente, seremos obrigados a tomar conhecimento de mais dessas leis idiotas, que não servirão para nada, apenas para perpetuar a degradação ambiental e a ordem política das coisas desta sociedade paulista, brasileira, ocidental.

 

 

Ecologismos, Individualidades e Futuro.‏

Gabriel Moreira Monteiro Bocchi
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Ou: Desabafo para um discurso que não me desce.
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Desde que começou essa mania quase eufórica de “protecionismo ambiental”, mantive-me sempre muito calado e duvidoso frente às “alternativas ambientais” que são indicadas para as “ações individuais”. Os discursos de que “depende de você”, “se você fizer sua parte, o planeta agradece” etc, nunca me ganharam.
Individualmente, acho isso tudo um saco. Plástico.
Realmente não acredito que as ações individuais podem levar à algo além do que uma “pureza de espírito” pessoal; sim, o sujeito separa o lixo, e, pronto, já fiz a minha parte!
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Segunda feira, assistindo a transmissão do “dia grunge” no SWU, em um intervalo de bandas, a apresentadora chata do canal de TV à Gato foi obrigada a falar sobre questões ambientais, parece que o lema do festival é “sustentabilidade” – só se for dos organizadores e patrocinadores – aliás, que pouca vergonha a Rainequem, famosa por suas garrafinhas verdes não retornáveis, se dizer “amiga do meio ambiente”.
A jovem apresentadora, que usava “alternativo” como adjetivo para tudo que dizia respeito ao Sonic Youth, mostrou uma garrafa d’água – produzida por um dos patrocinadores do festival – que era extremamente ecológica: criada com um plástico menos rígido, após consumir a água bastava amassá-la que ela estava pronta para a reciclagem!
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E ainda completou: “você se refresca, se hidrata e ajuda o planeta!”.
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Neste instante, na sala da casa em que cresci, acompanhado de meu pai, desabafei:
Mãe do céu! vem me falar que dobrar garrafinha é ajudar o planeta? Isso não é droga nenhuma! Não muda situação nenhuma! Fazer um festival no meio de um sítio, emitir gases com aviões, caminhões, carros etc, e vem falar que amassar a garrafinha é atitude pra salvar o planeta? Quer salvar o planeta? Pára de produzir plástico! Pára de produzir tudo! Pára de consumir matéria prima!
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Campanha: É a Gota D’ Água + 10… Diga não a Belo Monte!!!

Thaylizze Pereira

 

Campanha contra a Hidrelétrica de Belo Monte, nós apoiamos essa ideia. Participe, compartilhe essa informação e contribua para construir uma Brasil um pouco melhor.

 

Assine Já ; http://www.movimentogotadagua.com.br/assinatura
NOVO SITE http://avaaz.org/parebelomonte
ASSINE TAMBEM : http://precojustoja.com.br/

O homem e a problemática ambiental!

Cassia Lussani

“Reconhecer o valor social e ecológico de uma fonte de recursos naturais leva ao seu uso equitativo e sustentável. Em compensação, considerar um recurso natural apenas em termos de seu preço de mercado, cria padrões de uso injusto e não sustentável.”

Com essa citação encontrada no livro “Guerras por água: privatização, poluição e lucro”, da indiana Vandana Shiva, percebemos que a discussão sobre a questão da água segue além da necessidade de conscientização das pessoas sobre o seu uso. Sem podermos descartar a importância que atitudes simples do cotidiano podem ajudar a frear a falta de água futura, ainda assim há fatores maiores que contribuem imensamente para este problema.

Culpada pelos assoreamentos dos rios e das erosões do solo, a agricultura extensiva monocultora ocupa para o seu empreendimento grandes quantidades de água. Esta muitas vezes é extraída de forma errada, e em quantidade maior do que suporta o solo de repor pela infiltração. Esse formato produtivo também é responsável pelo uso intensivo de agrotóxicos que, seguindo a infiltração do solo, contamina os lençóis freáticos.

A necessidade de produzir cada vez maiores quantidades de produtos, independente de quais danos isso trará para o meio ambiente, geram uma inconsciência de que todos no planeta vivem e necessitam dos mesmos recursos que estão disponíveis hoje, mas que são finitos. Salvar o planeta de impactos ambientais negativos não é uma questão de salvar espécies em extinção ou de nichos ecológicos específicos, é salvar a nossa própria espécie, humana.

Bem Viver: contribuição da América Latina para uma geossociedade

Mirian Claudia Lourenção Simonetti

 

Análise

 

Está surgindo, bem ou mal, um design ecologicamente orientado por práticas e projetos que já ensaiam o novo

12/08/2011

 

Leonardo Boff

Por todas as partes no mundo cresce a resistência ao sistema de dominação do capital globalizado pelas grandes corporações multilaterais sobre as nações, as pessoas concretas e sobre a natureza. Está surgindo, bem ou mal, um design ecologicamente orientado por práticas e projetos que já ensaiam o novo. A base é sempre a economia solidária, o respeito aos ciclos da natureza, a sinergia com a Mãe Terra, a economia a serviço da vida e não do lucro e uma política sustentada pela hospitalidade, pela tolerância, pela colaboração e pela solidariedade entre os mais diferentes povos, demovendo destarte as bases para o fundamentalismo religioso e político e do terrorismo que assistimos nos EUA e agora na Noruega.

Entre muitos projetos existentes na América Latina como a economia solidária, a agricultura orgânica familiar, as energias alternativas limpas, a Via Campesina, o Movimento Zapatista e outros queremos destacar dois pela relevância universal que representam: o primeiro é o “Bem Viver” e o segundo a “Democracia Comunitária e da Terra”, como expressão de um novo tipo de socialismo.

O “Bem Viver” está presente ao longo de todo o continente Abya Yala (nome indígena para o Continente sul-americano), do extremo norte até o extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois são as mais conhecidos: suma qamaña (da cultura aymara) e suma kawsay (da cultura quéchua). Ambas significam: “o processo de vida em plenitude”. Esta resulta da vida pessoal e social em harmonia e equilíbrio material e espiritual. Primeiramente é um saber viver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com a Divindade, com a Mãe Terra, com suas energias presentes nas montanhas, nas águas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se uma economia não da acumulação de riqueza mas da produção do suficiente e do decente para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades das gerações futuras.

Esse “Bem Viver” não tem nada a ver com o nosso “Viver Melhor” ou “Qualidade de Vida”. O nosso Viver Melhor supõe acumular meios materiais, para poder consumir mais dentro da dinâmica de um progresso ilimitado cujo motor é a competição e a relação meramente de uso da natureza, sem respeitar seu valor intrínseco e sem se reconhecer parte dela. Para que alguns possam viver melhor, milhões têm que viver mal.

O “Bem Viver” não se identifica simplesmente com o nosso “Bem Comum”, pensado somente em função dos seres humanos em sociedade, num antropo-e-sociocentrismo inconsciente. O “Bem Viver” abarca tudo o que existe, a natureza com seus diferentes seres, todos os humanos, a busca do equilíbrio entre todos também com os espíritos, com os sábios (avôs e avós falecidos), com Deus, para que todos possam conviver harmonicamente. Não se pode pensar o “Bem Viver” sem a comunidade, a mais ampliada possível, humana, natural, terrenal e cósmica. A “minga” que é o trabalho comunitário, expressa bem este espírito de cooperação.

Essa categoria do “Bem Viver” e do “Viver Bem” entrou nas constituições do Equador e da Bolívia. A grande tarefa do Estado é poder criar as condições deste “Bem Viver” para todos os seres e não só para os humanos.

Esta perspectiva, nascida na periferia do mundo, com toda sua carga utópica, se dirige a todos, pois é uma tentativa de resposta à crise atual. Ela poderá garantir o futuro da vida, da humanidade e da Terra.

A outra contribuição latino-americana para um outro mundo possível é a “Democracia Comunitária e da Terra”. Trata-se de um tipo de vida social, existente nas culturas da Abya Yala, reprimida pela colonização mas que agora, com o movimento indígena resgatando sua identidade, está atraindo o olhar dos analistas. É uma forma de participação que vai além da democracia clássica representativa e participativa, de cunho europeu. Ela as inclui, mas aporta um elemento novo: a comunidade como um todo; esta participa na elaboração dos projetos, de sua discussão, da construção do consenso e de sua implementação. Ela pressupõe já uma vida comunitária estabelecida na população.

Ela se distingue do outro tipo de democracia por incluir toda a comunidade, a natureza e a Mãe Terra. Reconhecem-se os direitos da natureza, dos animais, das florestas, das águas, como aparece nas constituições novas do Equador e da Bolívia. Faz-se uma ampliação da personalidade jurídica aos demais seres, especialmente à Mãe Terra. Pelo fato de serem vivos, possuem um valor intrínseco e são portadores de dignidade e direitos e por isso são merecedores de respeito.

A democracia será então sócio-terrenal-planetária, a democracia da Terra. Há os que dizem: tudo isso é utopia. E de fato é. Mas uma utopia necessária. Quando tivermos superado a crise da Terra (se a superarmos) o caminho da Humanidade seria este: globalmente nos organizarmos ao redor do “Bem Viver” e de uma “Democracia da Terra”, da “Biocivilização” (Sachs). Já existem sinais antecipadores deste futuro.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.