Archive for the ‘Ensaios’ Category

A mudança de um paradigma cultural como solução dos problemas ambientais

Laura B. P. Christovam


Vivemos hoje em uma cultura do consumismo. Se entendermos cultura como “interações complexas entre muitos elementos diferentes de comportamentos sociais e guiam os homens em um nível quase invisível” (ASSADOURIAN, 2010) e também como “processos sociais que fazem com que aquilo que é artificial (ou construído pelos homens) pareça natural” (WELSH e VIVANCO) podemos ver que a cultura é uma construção. E, se ela pode ser construída pode ser também desconstruída.

A naturalização dos padrões de consumo na contemporaneidade é extremamente perigosa. A associação de felicidade e bem estar com adquirir bens de consumo é o mal que afeta a humanidade desde a Revolução Industrial do século XVIII e que hoje atinge níveis catastróficos. Isto porque a utilização dos recursos naturais (minérios, combustíveis fósseis, queima de florestas, poluição das águas) visando manter os padrões de consumo atuais resultam em uma maior destruição dos sistemas naturais, os quais tanto os homens quanto outros animais e as plantas necessitam para a sua sobrevivência.

O grande problema hoje é que o homem “descolou” sua sobrevivência atrelada à natureza. O homem não se vê mais como parte integrante de um sistema ecológico e, por este motivo, não consegue enxergar que as suas ações danosas a natureza podem, em pouco tempo, resultar em sua extinção.

Mas isto não irá ocorrer por falta de avisos. Em 2008, 68 milhões de veículos foram comprados no mundo todo. (ASSADOURIAN, 2010) isto significa maior nível de poluição e liberação de gás carbônico na atmosfera. Dados como este, e os divulgados por cientistas e instituições como a “Pegada Cultural” mostram a importância de uma mudança radical nos níveis de produção e consumo a fim de se evitar uma catástrofe natural como, por exemplo, a elevação dos níveis dos oceanos resultado do derretimento das calotas polares advindas do aumento da temperatura média global. Calcula-se que 1.3 bilhões de pessoas serão refugiadas ambientais em 2050 advindas das áreas costeiras inundadas pelos oceanos.

Para se quebrar este paradigma, há de se atacar e mudar a estrutura sistêmica na qual estamos inseridos. Esta estrutura está apoiada em três grandes pilares: a mídia, os governos e a educação. A primeira deixou de ser apenas um veiculo, mas tornou-se uma instituição social no estimulo ao consumismo. A veiculação de propagandas nas televisões, rádios e massivamente na internet fazem com que haja sempre a veiculação de imagens associativas entre felicidade e poder de consumo. O segundo faz o estímulo ao consumo porque este é o grande fomentador das economias nacionais e uma economia forte é sinônimo de poder internacional. A terceira é talvez a mais emblemática. As escolas que deveriam ter o papel de formar cidadãos críticos, ativos e informados estão cada vez mais a serviço das instituições privadas as quais passam a sua ideologia de mercado como positiva, tornando os alunos como incapazes de realizar uma compreensão critica de sua realidade.

Com a mudança de paradigma destas três instituições haverá a substituição de valores da sociedade. Nestes estarão incluídos a recuperação ecológica, a criação de bens não residuais, a criação e aperfeiçoamento das tecnologias verdes e o principal de todos: a redução drástica dos níveis de consumo.

O Cacique Seatle, em 1854, em resposta a uma oferta de compra feita pelo presidente dos EUA à “sua” reserva disse “O homem não tramou o tecido da vida, ele é simplesmente um de seus fios”. É este resgate cultural que o homem precisa fazer. Se ver como parte integrante do todo e parar de destruir o único bem intrínseco a sua sobrevivência: a natureza.

 

Referencias Bibliográficas

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

Ascensão e Queda das Culturas de Consumo – Erik Assadourian em “Estado do Mundo”, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável / Worldwatch Institute

A era da estupidez Diretora: Franny Armstrong, 2009

Anúncios

O que está por trás do debate sobre a crise ambiental

Priscila de Paula Varela

Levantamentos sobre a crise ambiental têm se tornado cada vez mais comuns não só no meio científico como em diversos setores da sociedade. Continuamente recebemos através da mídia notícias de estudos sobre os impactos ambientais causados pelo homem e prognósticos dos resultados de séculos de exploração da natureza. Mas o debate não é novo, há mais de quarenta anos os alertas ambientais começaram a ser difundidos pelo mundo, o que nos leva a nos questionarmos  por que somente nos últimos anos o assunto ganhou notoriedade e quais os interesses envolvidos no assunto.

No decorrer dos últimos séculos a crença no poder do homem sobre a natureza foi cada vez mais acentuada e valorizada. Com o advento das idéias renascentistas de humanismo, com o antropocentrismo e após o iluminismo, o conceito de homem como um ser racional, dotado de inteligência superior e acima dos animais se propagou consideravelmente, assim como a desvalorização da religião e de antigas crenças e mitos em detrimento da racionalidade. Isso propiciou o desenvolvimento da ciência, o que permitiu ao homem aprimorar amplamente suas capacidades físicas e intelectuais, entretanto, essa necessidade de distanciamento de tudo relacionado ao tradicional e ao natural gerou a desvalorização da noção de homem enquanto ser integrante da natureza e ele passou a se ver como um ente à parte dela. Os recursos naturais passaram a ser encarados como um meio para a satisfação de suas necessidades, como se sua função primordial fosse estar a serviço do homem, sendo então natural que ele se apropriasse de tudo em benefício próprio.

A ciência trouxe muitas vantagens para o homem e não podemos negar o quanto o desenvolvimento tecnológico nos propiciou em relação à melhoria das condições de saúde, de trabalho e da vida de um modo geral. O que ocorre, entretanto é que a supervalorização da ciência acabou de certa forma transferindo grande parte da antiga fé geral em crenças religiosas e míticas para o meio científico. Passamos a acreditar que a ciência é capaz de tudo, criar, dar respostas e resolver a qualquer coisa, só bastando para isso o tempo e estudo apropriados. O que muitos esquecem é que a ciência é feita por homens e, por isso, passível de falhas, crenças particulares, jogos políticos e interesses diversos e que, assim como qualquer outro  fator social está inserida em um contexto.

Ao pensarmos sobre isso percebemos então que a crença na ciência e a necessidade do desenvolvimento de novas tecnologias se ligam a muitas outras coisas além do atendimento das necessidades básicas humanas e da melhoria das condições de vida em sociedade, elas envolvem interesses políticos e financeiros.

 Com o desenvolvimento do capitalismo pudemos observar o crescimento exponencial do consumismo e a necessidade cada vez maior da criação e absorção de novas tecnologias. Esse desenvolvimentismo exacerbado tornou justificável qualquer ação do homem, mesmo as que prejudicassem o meio ambiente, até o ponto da naturalização do uso ao máximo dos recursos naturais para a obtenção de novos recursos tecnológicos.  Contudo,  há alguns anos a exploração desenfreada da natureza começou a mostrar seus resultados e a questão não pôde ser mais ignorada, estudos e análises passaram a ser feitos e os debates sobre o tema se tornaram mais freqüentes.  O que prejudica esse quadro é que, conforme mostrado no documentário “A Era da Estupidez” que mostra os questionamentos de um hipotético homem do ano 2055, único sobrevivente das catástrofes geradas pelo aquecimento global, a preocupação em relação os fatores de risco da ação humana sobre o meio ambiente sempre foi subjugada por outros interesses.

O homem tem como característica se preocupar com perigos imediatos, ele não consegue fazer uma relação apropriada entre suas ações e os resultados em um longo período de tempo. Por mais que há décadas o assunto venha sendo discutido ele sempre esteve suscetível a interesses políticos e financeiros, o que significa que se houve um aumento recente das discussões sobre o tema elas inevitavelmente estão influenciadas por esses mesmos valores.

Temos que nos perguntar até que ponto a discussão sobre a crise ambiental está realmente ligada a interesses ambientais e o quanto ela é influenciada por interesses particulares. E um exemplo disso é a exaltação que se tem feito sobre o desenvolvimento dos biocombustíveis, na crença de que através da ciência o homem conseguirá achar fontes alternativas de energia. A necessidade da diminuição da poluição e do uso de fontes de energia renováveis não está em questão aqui, o que precisamos considerar é se os biocombustíveis irão mesmo diminuir os impactos ambientais. Temos de nos conscientizar que com a crescente escassez de alimentos no planeta o uso de terras cultiváveis para a plantação de monoculturas como soja e cana-de-açúcar não trará realmente benefícios ao planeta como um todo, mas somente para alguns países e para as grandes corporações que detém o poder sobre as indústrias energéticas e que não querem perder seu status.

Disso tudo percebemos então que, conforme dito anteriormente a crença inabalável na ciência faz muitos acreditarem que ela é capaz de resolver qualquer problema, e isso inclui os problemas ambientais que enfrentamos. A sociedade se tornou altamente consumista e as pessoas são levadas a pensar que a vida pautada pelo consumo possui um sentido e é algo natural, e que os dados sobre futuras catástrofes naturais são exagerados ou vão ocorrer em um futuro que não as atingirá. O fato de uma minoria consumir o que seria suficiente para uma quantidade muito maior de pessoas é ignorado. Fala-se na criação de novas fontes de energia, mas os princípios causadores dos problemas ambientais são deixados de lado e as propostas apresentadas são pautadas por interesses particulares. Ninguém quer diminuir seu consumo ou utilizar os recursos naturais de forma sustentável, é mais fácil continuar no mesmo padrão de comportamento, com as desigualdades presentes e acreditando que a ciência resolverá tudo.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ARMSTRONG, Franny. A Era da Estupidez (Age of Stupid, The). [documentário]. Reino Unido, Movie Mobz, 2009, 100 min.

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano escrita em 1854 – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

ASSADOURIAN, E. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo. Estado do mundo: Transformando Culturas do consumismo à sustentabilidade. Washington: Worldwatch Institute, 2010.

LATOUR, Bruno. Abrindo a caixa – preta de Pandora. Ciência em Ação; como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp, 2000.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Uma outra verdade inconveniente: uma nova geografia política da energia numa perspectiva subalterna. IN: OLIVEIRA, Márcio Piñon, COELHO, Maria Célia Nunes e CORRÊA. 2005.

Considerando o consumismo desenfreado

Caroline Fernandes Mendes

 Considerando o consumismo  desenfreado, as  grandes corporações sobrepondo-se aos governos, a modernidade  instalada e “falida”, industrialização arrasadora e impassível , o individualismo exacerbado e  as políticas neoliberais manipuladoras é possível traçar um panorama do impasse que vivemos hoje em relação aos movimentos socioambientalistas que atuam, em contrapartida, a todo esse contexto citado.

  A necessidade de transformar a cultura do consumismo em uma cultura sustentável é gritante, isto levando em conta o fato da população mundial “consumir cada vez mais combustíveis fósseis, comer mais carne e converter mais terra em áreas agrícolas e urbanas” (Assadourian, p.5)

 Esse padrões de consumo não são sustentáveis, nem são manifestações inatas da natureza humana, são padrões de consumo construídos culturalmente e considerados “naturais”, como se não houvesse outra forma de apropriar-se da natureza, utilizando-se de um modelo alternativo, isto é, resignificando   o conceito sobre o que é natural.

  Instaura-se a necessidade de transformação dos padrões culturais dominantes, evitando, assim, o colapso da civilização mundial cujas bases concentram-se no consumismo disseminado e reforçado ao longo dos séculos, no individualismo estabelecido com a modernidade juntamente com a noção de industrialização atrelada à idéia de desenvolvimento, progresso.

   A questão que se coloca é como lidar com o fato de o consumo por pessoa ter quase triplicado nos últimos cinqüenta anos e que, mesmo considerando o crescimento populacional, esse aumento é desproporcional, isto devido ao uso indiscriminado e acelerado dos recursos disponíveis à dominação voraz do homem moderno. Para atender a níveis de consumo cada vez maiores, os sistemas ecológicos vem sofrendo um de recursos sem prescrição, sem planejamento.

  De acordo com as normas culturais presentes em um número crescente de culturas de consumo no mundo todo seria necessário mais de um planeta (considerando que cada indivíduo consumisse o mesmo que um europeu ou estadunidense, o que nos leva a repensar a posição dos países ‘emergentes’, utilizados como grandes latifúndios para exportação, visando o agronegócio) para acompanhar esse ritmo alucinante de produção, atendendo as demandas de todos os produtos considerado “indispensáveis” atualmente e que, na verdade, são inculcados na cabeça das pessoas através da mídia, utilizando-se da  suposta satisfação e reconhecimento por meio do consumismo.

  A Era da Estupidez mostra-se totalmente instaurada, já que boa parte desses recursos não são renováveis e o equilíbrio ecológico encontra-se alterado e em constante degradação, nos levando à não renovação da manutenção de alguns recursos, colocando em cheque  a capacidade dos nossos ecossistemas sustentarem futuras gerações. Creio que a noção de desenvolvimento sustentável – tão deturpada pelos meios de comunicação em geral – colocada pelo Cacique de Seatle demonstra muita sabedoria ao escancarar a forma utilitarista, pragmática e dominadora do homem branco ao lidar com a ‘Pacha Mama’. “Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.” (Carta do Cacique de Seatle ao Presidente Norte-americano).

O Cacique reitera a importância e urgência de repensarmos nossa cultura “civilizada” de forma holística, lembrando que o homem pertence a terra e não o contrário, e que o mesmo, sendo um dos fios do tecido da vida, deve zelar pelo reciprocidade da mãe-terra, mantendo essa relação de mão dupla, já que sabemos que tudo que o homem fizer recairá sobre os filhos da terra.  E isto também sabemos: Vale a pena salvar-nos! (isso significa salvar a nossa mãe-terra ao mesmo tempo, é claro, visto que um é totalmente intrínseco ao outro).

A irracionalidade urbana


Caio Pauzer Guedes

 

O mundo vem observando há séculos um processo de urbanização desordenado e caótico, que vem prejudicando o meio-ambiente de maneira dramática e afetando a qualidade de vida das pessoas.

Como marco inicial nesse processo, pode-se entender o cercamento dos campos de uso comum dos camponeses europeus, ocorrido entre os séculos XVIII e XIX, que fez com que as populações que vivam nas áreas rurais migrassem para as cidades – fenômeno conhecido como a primeira onde expropriatória dos camponeses – e se tornassem os operários das fábricas que impulsionaram o capitalismo.

 Mas onde foram morar essas pessoas? Justamente esse é um ponto chave para se entender o problema: não houve planejamento urbano na maioria das cidades, essas pessoas se colocavam onde podiam, em lugares marginalizados pelos que ali já habitavam geralmente distantes dos centros, nas periferias e onde não havia estrutura para alocar pessoas.

Com a chamada revolução verde, que prezou pelos latifúndios mecanizados, com técnicas intensivas de produção, por volta dos anos 1960, houve a chamada segunda onda expropriatória, que dessa vez abrangeu também povos originários e populações negras, principalmente na América Latina, África e Ásia, fazendo aumentar ainda mais a população nas cidades.

Esse processo, que vem se acentuando nos últimos 40 anos, é conhecido como desruralização e Suburbanização, uma vez que as pessoas saem do campo e acabam vivendo em locais inapropriados, sem condições de criar suas famílias com o mínimo de dignidade.

Podemos citar o exemplo da região serrana do Rio de Janeiro, que recebeu trabalhadores de diversas partes do Brasil quando da construção das Usinas Nucleares de Angra e da estrada Rio-Santos. Depois da construção dessas obras grandiosas, que fizeram dinamizar a economia local, essas pessoas foram largadas à própria sorte, e a opção de habitação que tiveram para criar suas famílias foram os morros, já que as áreas de planície dessas cidades são ocupadas por grandes casas de luxo e estabelecimentos voltados ao turismo.

Foram justamente essas pessoas as mais prejudicadas na tragédia que ocorreu na região no início do ano de 2010 em razão de fortes chuvas. Houve deslizamentos de terras e muitas famílias perderam tudo o que tinham, além de entes queridos.

Como pensar na crise ambiental e não pensar que para solucioná-la, ou pelo menos abrandá-la, é necessário pensar em habitações decentes para essas pessoas, com infraestrutura básica – como saneamento, educação e atendimento médico? Se utilizarmos o espaço urbano de maneira mais eficiente, respeitando a terra, como diz o cacique Seatle em sua carta ao Presidente norte-americano, e entendendo que se essas pessoas tiverem moradia digna, não vão precisar desmatar áreas de preservação ambiental, devastar florestas nativas para construir suas habitações, ainda que precárias.

Vivemos num mundo onde a maioria das pessoas habita os espaços urbanos, saber otimizar seu uso é fundamental. Não podemos admitir a construção desordenada de nossas cidades, que acaba por devastar o resto de patrimônio verde que ainda temos. Saber respeitar a natureza entendendo que dela necessitamos para a nossa própria preservação, é crucial e deve começar nas escolas, com educação ambiental e, acima de tudo, educação para a cidadania. Apenas assim conseguiremos enfrentar a crise ambiental que vem se agravando a cada dia.

O Mundo Contemporâneo e a Crise Ambiental: Uma análise sobre as prioridades da sociedade atual

Júlio Fernandes do Prado Leutwiler

 

Com o desenvolvimento do capitalismo a partir do século XVIII, e as variadas fases deste movimento, o sistema econômico baseado neste contexto foi fundamentado pelo aprofundamento das relações do homem com a natureza. Tal relação pode ser verificada de maneira de sempre se desenvolver, premissa básica da sociedade capitalista, porém este desenvolvimento trouxe consigo um aumento gradual da destruição da natureza que a partir do desenvolvimento tecnológico se acentuou de maneira sistemática durante todo o decorrer histórico do momento analisado.

Muitos problemas são relatados advindos desta lógica, essa maior interação do ser humano com os recursos naturais (o próprio conceito de “recurso” nos remete a idéia de esta natureza ser considerada propriedade do sistema capitalista e do desenvolvimento da raça humana, sempre como prioridade do planeta) é claramente identificada de maneira negativa atualmente pela maioria dos intelectuais, entretanto poucas são as medidas no cenário atual e histórico para a modificação deste processo.

Este quadro começa a ser posto em cheque, pela possibilidade obvia da não sustentação da natureza frente a esta expropriação secular do desenvolvimento econômico baseado nesta interação inicial. Logicamente que o ser humano em sua essência tem como base sua relação com o meio ambiente, pois ele faz parte deste e parece até mesmo superficial esta análise, porém o que vemos é o distanciamento desta premissa básica frente a interesses individuais ou mesmo a falta de inteligência da espécie considerada pensante. A partir desta lógica é bastante provável que todo este “desenvolvimento” a partir da revolução industrial seja um paradoxo onde o que seria considerado inteligente e moderno, ter apenas distanciado a essência da humanidade, que novamente é sua relação necessária com a natureza o que trouxe uma grande destruição da mesma. Dessa forma, algo deve ser constatado, o que esse processo realmente promoveu, um desenvolvimento de uma sociedade moderna e o distanciamento do “tribalismo”, ou essa interação prejudica quem a conduz e fere esta própria sociedade?

            Como menciona o cacique Seatle, em sua carta ao Presidente norte-americano, onde está à preocupação com a “nossa” terra, da qual somos frutos e de forma alguma podemos desvincular de nossa existência, pois é nisso que ela se baseia.

            Entretanto o que vemos a partir das perspectivas atuais, é o aprofundamento dos problemas ambientais, que este sistema produz tudo em prol do desenvolvimento capitalista dos Estados considerados modernos. E, além disso, outras problemáticas são compreendidas e fazem parte desta interação com o mundo capitalista, que são os problemas de caráter social que a evolução deste sistema criou como a urbanização desordenada, onde a maioria da população mundial vive em condições precárias e marginais, movimento este que o ocidente já passou e atualmente vemos a Ásia sofrer ferozmente, como por exemplo, o aumento gigantesco das cidades chinesas nos últimos dez anos. Outra questão que nos remete é o acirramento dos problemas fronteiriços entre os estados, o aumento do preconceito, porém estas “zonas de segurança” são criadas apenas com algumas interrupções, de forma com que o capital financeiro e especulativo não tenha impedimentos no seu andamento.

Toda está lógica apontada como “A Era da Estupidez”, título do documentário que embasa esta reflexão, nos remete a questão paradoxal que foi apontada anteriormente, quem realmente esta sendo prejudicado em prol do desenvolvimento a qualquer custo. Este contexto de grande instabilidade ambiental atualmente põe em cheque, toda a lógica de acumulação capitalista e os problemas sociais que isso acarreta, e uma real análise deve ser feita na essência da sociedade atual, para que este processo possa ser ao menos reduzido e as conseqüências dele diminuídas.

O Mundo Contemporâneo e a Crise Ambiental


Rafaela Sforcin Leonel

 

            Muito se discute a respeito das mudanças que ocorrem no planeta e suas conseqüências: o aumento da temperatura, os constantes desastres naturais, a extinção das espécies da fauna e da flora e tantos outros. Os ambientalistas buscam constantemente soluções cada vez mais complexas para se obter um equilíbrio entre o avanço do capitalismo e das tecnologias com a sustentação do meio ambiente no planeta em que vivemos.

            Desde a década de 70 a população vem tomando consciência de que enfrentaremos uma crise ambiental mundial. Não se trata de casos isolados, mas sim de um problema generalizado que põe em risco todo o ecossistema e os seres que nele vivem.

            A partir da segunda metade do século XVIII eclodiu a Revolução Industrial, que se caracterizou pela transição de um sistema agrário e artesanal para outro industrial, dominado por fábricas e máquinas, onde a inovação tecnológica tornou-se constante. Essa concepção ajudou na consolidação do sistema capitalista, que busca produção em larga escala e o acúmulo de riquezas, não importando os meios utilizados para chegar ao produto final. Com isso o ser humano explorou cada vez mais os recursos naturais, para o benefício próprio, sem pensar nas conseqüências que teriam que enfrentar futuramente.

            Com a Revolução Industrial, o modo de viver da população também se modificou. A mecanização da lavoura e do transporte marítimo, a regulamentação de horas de serviço e as modificações nas instalações sanitárias melhoraram a qualidade de vida. Como conseqüência dessa melhoria, houve uma queda na taxa de mortalidade, que não foi acompanhada pela taxa de natalidade, com isso houve um grande aumento demográfico, e o aumento da população mundial tornou-se quase uma linha vertical, tamanha a rapidez do processo, principalmente nos países em desenvolvimento.

            As reflexões de Erik Assadourian e do cacique de Seattle se fazem imprescindíveis para o entendimento do pensamento da sociedade capitalista do mundo moderno. Os dois discursos possuem fontes radicalmente distintas. De um lado um intelectual renomado e de outro um líder indígena, apontando, cada um a sua maneira, críticas tão ferrenhas quanto pertinentes a sociedade moderna.

            Para o cacique de Seattle, o “homem branco” desmistifica e desencanta a natureza, reduzindo-a em valor de troca. Segundo ele, “o ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém.”

Haveria, para o cacique de Seattle uma ruptura e uma “mercantilização” da relação do homem com a natureza. O “homem branco”, ao transformar o artefato sagrado para os indígenas em bem de consumo, reduz à valor troca todo um mundo dotado de sentido. Exatamente por isso o cacique consegue apontar uma característica marcante da sociedade capitalista moderna. Ao afirmar que o “homem branco” “não sente o ar que respira”, o líder indígena vem evidenciar uma relação particular que o homem tem com a natureza, de onde ele tira sua sobrevivência. A sociedade capitalista desencanta e desumaniza toda e qualquer tipo de relação. Para Weber, o que caracteriza a sociedade ocidental seria um processo de “desencantamento do mundo”, que “desmagificou” as formas de salvação e principalmente as relações do homem com o mundo. Em “A Ciência como vocação”, Weber mostra muito bem essa questão afirmando que:

Isto significa: o desencantamento do mundo. Ninguém mais precisa lançar mão de meios mágicos para coagir os espíritos ou suplicar-lhes, feito o selvagem, para quem tais forças existiam. Ao contrário, meios técnicos e cálculo se encarregam disso. Isto, antes de mais nada, significa a intelectualização propriamente dita (WEBER, 1972, p.49).

Essa lógica que movimenta a sociedade moderna, segundo Weber, transforma uma relação mistificada e encantada com a natureza em uma relação de cálculo racional e técnico. Nesse sentido que o “homem branco” compra e vende aquilo que seria sagrado, exatamente porque ele não “sente o ar que respira”, ou seja, não percebe o sentido do mundo indígena, uma vez que o sentido do mundo ocidental é o da racionalidade capitalista.

Erik Assadourian nos mostra que a relação do homem com a natureza é uma relação reificada, ou seja, mediada e fundamentada pelo lucro desenfreado. Assim, nota-se o aumento do consumo sem se observar suas conseqüências. A lógica do lucro e do consumo como melhoria de vida determina uma forma de ação sobre a natureza que prima, exclusivamente, pelo aumento da capacidade de compra dos indivíduos. Exatamente por isso que a relação dos homens entre si e com a natureza é reificada.

“A reificação configura-se como o processo pelo qual, nas sociedades industriais, o valor (do que quer que seja: pessoas, relações inter-humanas, objetos, instituições) vem apresentar-se à consciência dos homens como valor, sobretudo, econômico, valor de troca: tudo passa a contar, primariamente, como mercadoria. (…) O trabalho reificado não aparece por suas qualidades, trabalho concreto, mas como trabalho abstrato, trabalho para ser vendido. A sociedade que vive à custa desse mecanismo produz e reproduz, perpetua e apresenta relações sociais como relações entre coisas. O homem fica apagado, é mantido à sombra. Todo o tempo, fica prejudicada a consciência de que a relação entre mercadorias (e a relação entre cargos) é, antes de tudo, uma relação que prevalece sobre a relação entre pessoas” Fernando Braga da Costa

            Pode-se então concluir que existe uma convergência nos discursos do cacique de Seattle e de Erik Assadourian, visto que ambos apontam características fundamentais da sociedade moderna. Uma sociedade que se fundamenta em uma relação desencantada com o mundo e reificada entre as pessoas. É neste sentido que problemas como o excesso de consumo vêm ganhando patamares cada vez mais preocupantes no mundo moderno.

O CONSUMISMO DESENFREADO ADVINDO DA GLOBALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS SOBRE A CRISE AMBIENTAL

Renata Tsumura Inocêncio Soares[1]

Na sociedade contemporânea, cada vez mais globalizada, um problema causado em uma parte do mundo é sentido e discutido no mundo inteiro e isso não é diferente quando se trata de meio ambiente. Há algumas décadas que a palavra sustentabilidade e responsabilidade para com o meio ambiente vêm se tornando palavras cada vez mais próximas do cotidiano das empresas, grandes multinacionais, propagandas comerciais e também da população no mundo inteiro. Dessa forma, os problemas ambientais vêm ganhando espaço nas discussões de ambientalistas e mesmo em temas de governança, porém, infelizmente a questão de adotar políticas severas e assertivas em relação à crise ambiental não é de consenso e nem faz parte do plano de governo de muitos países atualmente.

O modelo capitalista de produção dilatou as ondas globalizacionais e, como conseqüência trouxe o gravame da instabilidade dos mercados financeiros, da economia em geral e das relações de trabalho assim como a influência sobre o consumo. O perigo da construção de uma sociedade de consumista dependente, o vício do consumismo no qual o importante é o ter e o consumir e não o de ser e existir, além do direito do cidadão que virou direito do consumidor é alarmante, sobretudo quando traz conseqüências ao meio ambiente e à vida na Terra. Estas implicações se dão principalmente na extração de recursos naturais com seu aumento, devastação de grandes áreas verdes para o cultivo, além da grande produção de lixo, este por sua vez sem destino certo. Como mostra ASSADOURIAN (2010, p.4).

Como o consumo aumentou mais combustíveis, minerais e metais foram extraídos da terra, mais árvores foram derrubadas e mais terra foi arada para o cultivo de alimentos (muitas vezes para alimentar gado, visto que pessoas com patamares de renda mais elevada começaram a comer mais carne). Entre 1950 e 2005, por exemplo, a produção de metais cresceu seis vezes, a de petróleo, oito, e o consumo de gás natural, 14 vezes […] A exploração desses recursos para a manutenção de níveis de consumo cada vez mais altos vem exercendo pressão crescente sobre os sistemas da Terra, e esse processo vem destruindo com grande impacto os sistemas ecológicos dos quais a humanidade e incontáveis outras espécies dependem.

Dessa maneira, pode-se dizer que o consumismo atrelado a cultura que foi aderida pelos povos, especialmente com a interdependência cada vez maior entre os países e a “quebra” de fronteiras que possibilitou a aproximação de culturas muito distintas, fez com que as pessoas deixassem de lado costume que possuíam algum significado seja ele religioso, familiar, para aderirem ao costume de gastar. O Natal, por exemplo, para muitas pessoas já deixou de significar o nascimento de Jesus Cristo, ou muitas vezes cai no esquecimento o verdadeiro sentido de se comemorar a data, para dar espaço a novas preocupações como o que dar de presente para alguém ou o que irão comer no dia 25. E assim, acontece também com muitas outras datas.

Não obstante, todos estes pontos se tornam críticos quando nos deparamos que por trás de todos estes gastos e tudo mais existe uma natureza que está sendo devastada, assim como o aumento da extração de minerais, gás, petróleo porque o interesse por compra de carros aumentou, o número de instalação de fábricas subiu. Bem como o problema da devastação de terras e expropriação das mesmas para o estabelecimento de monoculturas ou criação de gado, poluição de águas e rios por uso inadequado, todos estes fatores geram o que chamamos de aquecimento global, efeito estufa, extinção de várias espécies de plantas e animais.

Todavia, não é uma tarefa fácil mudar a cultura de um povo e muito menos seus costumes de anos, contudo, se faz extremamente necessário que as pessoas tomem consciência de que as atitudes de hoje trazem conseqüências amanhã e, por isso, devemos a cada dia mudar nossos hábitos e repensar nossos conceitos. Para que a atitude chegue aos poderes do governo, devemos dar exemplo e exigir mudanças. É preciso agir localmente e pensar globalmente, para que assim não possamos nos arrepender de atitudes que não tomamos principalmente com as questões de sustentabilidade como nos ensina Cacique SEATTLE (1854, p. 2)

 Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Bibliografia:

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

ASSADOURIAN, Eric. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo. Editora Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável / Worldwatch Institute; Introdução: Muhammad Yunus. Organização: Erik Assadourian; tradução: Claudia Strauch. Salvador, BA: Uma Ed., 2010.  298 págs. 1ª edição.

Filme – A era da estupidez.


[1] Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”-Faculdade de Filosofia e Ciências-Campus de Marília. Email: renatatis@hotmail.com