Elementos “Arcaicos e Modernos” da Ruralidade Brasileira

Bruno Lacerra de Souza

 Cientista Social pela UNESP-Marília e  Professor do Ensino Médio

Um Olhar sobre o Filme “Eu Tu Eles”[1] de Andrucha Waddington[2]

 

 I – O Filme enquanto resgate de uma história vivida

O filme “Eu, Tu, Eles” teve seu enredo pensado a partir de uma história verdadeira, publicada em um jornal brasileiro, história da roceira Maria Marlene Silva Sabóia, que viveu com três maridos morando todos juntos, na mesma casa, durante dez anos, no distrito de Quixelô, em Morada Nova, a 163 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. A trama que se passa entre Ozias, Zezinho (primo de Ozias), Darlene (mulher de Ozias) e Ciro (agregado da casa) representa tanto pela forma estética quanto pelo seu conteúdo, um padrão de comportamento dos brasileiros, que transita entre o arcaico e o moderno na formação social brasileira e como suas influencias ainda são presentes em nosso cotidiano.

Podemos dizer então que o filme retrata um Brasil, em comparação aos países que dominaram o processo de modernização, que se encontra partes no século XXI e partes no século XIX, característica dúbia, fruto da tardia transição entre a sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial. O surgimento do estado moderno está ligado ao rompimento da ordem doméstica, sendo que o indivíduo só torna-se cidadão (eleitor, elegível, contribuinte e responsável) quando responder às leis da cidade e não mais a um regimento familiar (que tende a desaparecer frente aos imperativos da nova condição de vida).

O filme, por se tratar de uma história real, é um resgate histórico importante para entendermos a particularidade brasileira quanto à construção de um estado de direito, e de como essa lógica de organização social influenciou as comunidades mais tradicionais presentes no campo que até hoje resistiram ou cederam à lógica do formalismo do estado burguês.

II – A trama e seus elementos

No início do filme, Darlene parte para o vilarejo, grávida, deixando sua mãe no campo, para casar, entende-se que com o pai de seu filho. Ao chegar à igreja se depara com o salão vazio. Chateada mas determinada parte para enfrentar o desafio de ter um filho sozinha. Como prometido à mãe, Darlene volta com o filho para a benção da avó, ao chegar à casa da mãe se depara com o velório da mesma. Após esse fato, Darlene resolve voltar para o sítio, fixando-se na antiga casa de sua mãe.

Darlene passa a trabalhar de sol a sol, de facão à mão no corte da cana, num contexto de seca e miséria. Recém-chegada de volta a sua terra, encontra um antigo vizinho (Ozias) construindo uma modesta casa, que naquelas condições era significativa de algum prestígio. Então, Darlene comenta com admiração: “Enricou, hein?”. Alguns dias após o encontro, Darlene recebe a visita de Ozias, que fruto de uma sociedade machista, vai “direto ao ponto” e oferece sua casa em troca da mão de Darlene. Sem nenhuma perspectiva de uma vida melhor, ela aceita a proposta.

Esse primeiro ponto é uma parte de importante reflexão para podermos pensar a constituição de uma moral camponesa a partir de valores éticos. Nesse caso o casamento (“valor familiar”) é uma condição necessária para sustentar e dar continuidade da vida no campo, ligando-se intrinsicamente aos valores “terra” e “trabalho” [3], funções respectivamente representadas por Ozias, que é o detentor da casa e do lote onde moram, e por Darlene que é a força de trabalho tanto na casa, quanto na roça. É de grande importância também percebermos que a mulher camponesa nesse contexto histórico (provavelmente entre os anos 60-70), já é assalariada e trabalha fora do contexto familiar, mesmo que em condições precárias.

Esse é um elemento importante para entendermos a particular formação social brasileira que na medida em que assalaria a mão de obra no campo, ainda a mantém seus empregados afastados dos direitos constitucionais do cidadão, subordinados a condições de miséria, fatores que ainda configuram uma relação de imposição de um “senhor de terras” que explora todos esses trabalhadores.

Na continuidade da trama, alguns anos depois, Zezinho, primo de Ozias, vai morar com o casal e torna-se o segundo marido de Darlene. Zezinho, apaixonado, proporciona a atenção que Darlene não encontra em seu marido. Darlene dá a luz a uma criança parecidíssima com Zezinho. Osias, por sua vez, finge ignorar as evidências. Zezinho toma conta de seu filho não pretendendo esconder ser seu, porém, nem mesmo assim Osias renega a convivência com ambos.

Observamos nesse ponto uma lógica patriarcal no comportamento de Ozias, que tolera o comportamento da mulher e do primo, por saber que de acordo com a moral vigente naquele contexto, ele era o “dono” da mulher, perante a família e toda a comunidade, demonstrando a questão da honra está relacionada à posse de Darlene, da casa e dos filhos que ali residiam e que o continuariam sendo subordinados enquanto dependessem de seu “território” para sobreviver.

Tempos mais tarde, Darlene conhece Ciro, um rapaz bonito que estava de passagem, e apaixona-se. Ciro é levado para ficar na casa com o trio apenas por pouco tempo, pois não tem um lar fixo. Entretanto, torna-se o “terceiro marido” de Darlene ao morar definitivamente no sítio.

Nesse caso a presença de Ciro, um agregado, é concedida por Ozias, que se utiliza da paixão de Darlene por Ciro, para provocar Zezinho. Nesse sentido percebemos que o que configura essa relação é a honra, porque apesar de Darlene ter um filho com Zezinho e futuramente com Ciro, o que importa para Ozias é que sua mulher esteja em casa, trabalhe para o seu bem estar e durma com ele. Ozias se utiliza de todas as situações para reafirmar seu posicionamento de “senhor” que coordena as ações das pessoas segundo sua vontade, segundo a moral patriarcal camponesa ligada à tradição familiar.

Poderíamos dizer que a trama é reveladora ao demonstrar as diversas formas de amor existentes dentro de uma entidade familiar, considerando esse o mais novo conceito de família, que vai além da família tradicional e sagrada pelo matrimônio, mas esse fenômeno é na verdade expressão de uma particularidade brasileira já referida acima, que reafirma o caráter múltiplo da constituição do cenário social rural brasileiro.

O fecho do filme se dá com a ida do Ozias ao cartório com as crianças, fato que desespera Darlene por não encontrar as crianças em casa. Ozias registra todos como seus filhos, retorna a casa e entrega os papéis a Darlene na presença de Zezinho e Ciro dizendo: “Registrei os meus menino”, subentendendo-se a lógica de que se foram paridos por Darlene, eram dele, seu marido.

Nesse ponto podemos idealizar que os filhos de Ozias e Darlene já se constituem, formam suas identidades, embebidos da formalidade do mundo liberal e urbano, educados e mantidos por seu pai “jurídico”.  A educação familiar nesse ponto passa a ser então (em suas confusas limitações) um elemento formador preparatório para a “vida prática” fora dos limites da família, uma preparação para um indivíduo moderno, uma junção do “homo economicus” e o “homo moralis” ainda nos referindo ao aparato conceitual de Woorthmann.

Essa crise da adaptação do indivíduo a um novo modelo de mecanismo social é extremamente sensível em nosso tempo. As virtudes “antifamiliares” e individualistas estimulam um conflito com o modelo familiar tal qual o indivíduo permaneceu até determinado ponto de sua vida.

Esse é um elemento do início de uma modernidade a ser pensado na trama, pois no momento em que a ética daquelas relações sociais já não dá conta de assegurar a posição de Ozias (nesse ponto Darlene poderia fugir de casa com Ciro e constituir outra casa/família e deixa-lo) ele recorre às instituições sociais do estado para se firmar enquanto cidadão, rompendo com a ordem doméstica de organização da vida rural.

III – Conclusão

A partir do filme, ao tentarmos observar os elementos que constituem o cenário rural brasileiro na questão dos costumes camponeses, entendemos que o cineasta tenta ilustrar uma história vivida por uma mulher camponesa em meio a um contexto social não condizente com sua realidade, e que mesmo assim fazia parte de uma família tradicional, patriarcal e que como todas as outras mulheres. Darlene sofria também com a subjugação do mundo machista apesar de no Brasil desse contexto, simbolizar uma mulher que rompe com todos os paradigmas machistas e patriarcais ao ter filhos com mais de um homem e conviver com todos eles.

Darlene encontra-se refém de toda a constituição patriarcal do meio rural em que vive. O único modo de romper com Ozias seria abandonando-o e nessa condição, Darlene também estaria “presa” com o vínculo atribuído pela sociedade moderna, de ser mãe dos filhos de Ozias e não poder abandonar seus filhos. Essa é exatamente a constituição do cenário brasileiro demonstrado pelo filme. Um arranjo peculiar, um misto dos costumes rurais que passa a se subordinar aos novos limites, leis e costumes urbanos.

Referências:

BUARQUE DE HOLANDA, SÉRGIO. Raízes do Brasil. Comp. das Letras, 1995.

WOORTHMANN, KLASS. Com parente não se neguceia: O campesinato como ordem moral. Anuário Antropológico. Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Departamento de Antropologia, 1988.


[1] Eu, tu, eles é um filme brasileiro filmado nos anos 2000.

[2] Andrew “Andrucha” Waddington (Rio de Janeiro1970) é um diretor e produtor de cinema e publicidade brasileiro. É um dos sócios da Conspiração Filmes, junto com o cunhado, o diretor Cláudio Torres.

[3] Os termos que se encontram entre aspas fazem referência a Klass Woorthmann, especificamente em seu texto intitulado “Com Parente Não se Neguceia” em que Woorthmann busca entender o campesinato enquanto significado moral.

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