Modo de apropriação da natureza e territorialidade camponesa: revisitando e ressignificando o conceito de campesinato de Carlos Eduardo Mazzetto Silva

Adriane Camargo*

 

Há tempos que existe uma reflexão em torno do campesinato. Sobretudo na sociologia e na antropologia, uma longa discussão teórica busca compreender sua natureza, suas características, bem como apontar para sua permanência ou desaparecimento em um contexto de modo de produção capitalista e consumo.

O conceito de campesinato, que possui a matriz europeia como sua abordagem tradicional, vem sendo enriquecido pela reflexão que parte da existência de diversos campesinatos. Diferentes autores, especialmente da América Latina, têm apontado para os limites que a literatura tradicional enfrenta na análise do campesinato em países com histórico colonial, como no caso brasileiro que abrigou situações bastante heterogêneas que não são contempladas pela abordagem tradicional.

Partindo da observação que apontava para a existência de distintos campesinatos no Brasil, Carlos Eduardo Mazzetto Silva publicou, em 2007, o artigo “Modo de apropriação da natureza e territorialidade camponesa: revisitando e ressignificando o conceito de campesinato” na revista “Geografias”.

Refletindo sobre a expansão da fronteira agrícola brasileira, o autor faz dois questionamentos fundamentais: 1) quem seria efetivamente camponês, o gaúcho que possui, em parcela expressiva, acesso aos instrumentos agrícolas modernos ou a família que pratica a agricultura no local onde a fronteira se expande? e 2) essas famílias são camponesas? e se não são, pertencem a que categoria?

Buscando responder tais questões, Carlos Eduardo Mazzetto Silva pondera sobre o crescimento da força de aglutinação que existe em torno da Via Campesina, o que aponta para uma noção de campesinato não tão restrita quanto à abordagem europeia, mais pautada em um tipo ideal de sociedade camponesa. Assim, o autor busca a ressignificação do conceito de campesinato através do estabelecimento de uma relação entre os diversos tipos de territorialidades e seus respectivos modos de apropriação da natureza, partindo de uma perspectiva histórica e etnoecológica.

O que podemos perceber é que ao entender a construção histórica das territorialidades camponesas, sem descartar as clássicas tentativas de definição da campesinidade, o autor busca contribuir para a redefinição do campesinato pela inclusão da dimensão ecológica em sua análise. Para tanto, ele aponta primeiramente para as deficiências encontradas em outros conceitos utilizados na literatura que tentam abarcar o campesinato.

Assim, o autor inicia pela distinção de agricultura familiar por contraste com a agricultura patronal. Apesar de afirmar a utilidade dessa estratificação, por permitir uma noção da dimensão que possui essas duas categorias no país, essa abordagem não explicita, dentre outros, a heterogeneidade de formações sociais existentes no mundo não-urbano.

Após discorrer sobre os conceitos de agricultura familiar e agricultura patronal, o autor estabelece uma distinção entre camponês e fazendeiro, diferenciação essa já utilizada por antropólogos nas décadas de 1940 e 1950, sendo essa abordagem destacada pelo autor como fundamental para o debate em torno do mundo rural brasileiro. Utilizando-se dessa distinção em sua análise, baseadas em três dimensões, a saber: 1) dimensão simbólica; 2) dimensão material e 3) dimensão de poder, o autor avança no debate ao incluir uma quarta dimensão, a dimensão ecológica.

Ao incluir essa quarta dimensão, o autor enfatiza o caráter eminentemente local da territorialidade camponesa e a noção de sustentabilidade em sua localidade, onde os “sistemas camponeses” combinam diversos modos de adaptação em função das variações encontradas no ambiente em que habitam, em seu “lugar de viver”.

Por último, o autor analisa a relação entre o campesinato e o agronegócio em função da disputa territorial e do desenvolvimento rural ensejado por ambos, em que o campesinato estabeleceria uma relação com a natureza diferente da estabelecida pelo agronegócio, baseado na “terra-mercadoria”. A relação estabelecida com a natureza pelo campesinato pressupõe um apego ao lugar, ao seu habitat. A diferença principal entre ambos residiria no estabelecimento de vínculos com o lugar por parte do campesinato, enquanto o agronegócio teria em sua territorialização uma relação baseada no valor de negócio, visando à acumulação.

O autor conclui seu artigo abordando o papel que a academia teria no desenvolvimento de modelos alternativos, que servissem como instrumento para o fortalecimento das resistências camponesas, e na visibilidade das contradições encontradas no campo, ensejando um maior relevo aos saberes acumulados que permitem outra forma de apropriação da natureza, diversa da pleiteada pela forma ocidental, que seria a responsável pela atual crise socioambiental.

Apesar de inúmeras vezes o autor citar o campesinato e sua situação atual no Brasil, ele não avança nele propriamente em seu estudo. Antes, partindo de questionamentos já elencados aqui, ele almeja uma ressignificação do conceito de campesinato baseando-se em seu modo de apropriação da natureza em sua territorialização. Desse modo, o autor cumpre com o que havia proposto, estabelecendo uma discussão histórica-conceitual sobre o campesinato, evidenciando sua articulação com os temas ambientais, atualizando e contribuindo para o debate.

*Adriane Camargo é discente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro de Pesquisas e Estudos Agrários e Ambientais (CPEA) da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
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One response to this post.

  1. Muito interessante essa abordagem sobre o campesinato. Acho que este artigo é válido, mesmo que não chegue a avançar a respeito do assunto. Infelizmente, o Brasil entende o campesinato como algo negativo, que deve ser combatido e essa visão precisa ser modificada. De qualquer forma, acho que artigos como esse ajudam a modificar o pensamento da elite intelectual e da população como um todo.

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