O Campesinato Enquanto Significado Moral: Aproximações à Klass Woortmann.

       Bruno Lacerra¹

Para Woortmann² as análises do campesinato que pensam o modo de produção agrário decorrente do modo de produção feudal e estruturalmente subordinado ao modo de produção hegemônico do capital, corroboram para uma visão economicista da construção do campo, pensando sistematicamente em um “homo economicus”. Para o autor deixar a observação dos aspectos econômicos e partir para uma empreitada analítica da existência de uma ética no campo, significa observar a subjetividade do ser social, entendendo os significados das ações dos indivíduos forjadas por uma moral constituinte da ética compartilhada pelo campesinato.

A perspectiva do significado de cultura enquanto valor moral, assim como demonstra o autor, não exclui a análise do campo enquanto fator econômico, mas ao mesmo tempo, sugere que o “homo economicus” e o “homo moralis” constituem um mesmo sujeito que não pode ser pensado somente por uma perspectiva teórica.

A interpretação do autor acerca da condição do campesinato se dá a partir da análise do discurso desses camponeses, com o intuito de que o próprio ser social se coloque como tal, e que não somente o cientista interprete e dê significado a eles, constituindo um objeto fruto de uma abstração de seu olhar. Na perspectiva desses camponeses, a terra não é vista como um objeto (fator de produção), mas como a expressão de uma moral, representada no contexto por valores éticos.

A moral campesina é constituída então por um conjunto de valores que para o autor são:

       Terra/ Trabalho/Família/Liberdade

Na análise empreendida acerca do discurso dos referidos camponeses, a terra é percebida enquanto um patrimônio de onde se retira o fruto do trabalho, que garante o sustento da família e das próximas gerações. O trabalho por sua vez, se constitui na integração da força (de trabalho) familiar, elemento que garante a alimentação de todos os integrantes da família, que é entendida, além de uma unidade de produção, também como núcleo que dá base para uma organicidade social camponesa, elemento estruturante, socializador de seus integrantes. O valor “liberdade” é atribuído ao fato de não se sujeitar ao outro, ao ritmo ou às condições de trabalho de outrem, nesse aspecto, possuir um pedaço de terra retira o camponês da condição de assalariado, da sujeição, da humilhação, do cativeiro que se estabelece quando não se possui liberdade.

Esses valores morais que conduzem a ação e orientam fins e estratégias para promover a manutenção da vida campesina são compartilhados pelos camponeses em maior ou menor grau dependendo do tempo e do espaço, constituindo um “ethos” camponês. Nesse sentido relativo da formação do “ethos” camponês o agricultor pode ter uma concepção dupla da realidade tendendo a ética campesina ou à concepção mercadológica (capitalista).

Exemplo:

“Um camponês recobrir o sitio de pasto com o intuito de valoriza-lo no mercado de terras podendo assim comprar mais terras e ter o que deixar para seus filhos”.

Nesse caso, o camponês opera em uma lógica empresarial, na medida em que valoriza o seu meio de produção para conseguir mais terras, mas com o intuito moral ao ponto que busca a manutenção de sua família no campo. O autor indica que práticas aparentemente semelhantes podem ter motivações diferentes, motivações econômicas ou motivações de ordem tradicional³.

A ação camponesa em uma perspectiva de produção para o mercado não significa em si uma modernização no plano dos valores, ou seja, o camponês pode produzir para o mercado com o intuito de se manter no campo observando a terra como um patrimônio da família, sendo assim, esse camponês está ligado a terra na medida em que ela expressa o valor família.

Woortmann ressalta que nas relações sociais objetivas cotidianas, essas representações valorativas campesinas podem encontrar-se adormecidas ou naturalizadas, mas que, podem se transformar em “projeto” (fator de união) em momentos de crise frente às condições de exploração do capital. Nesse contexto a reconstrução de uma ordem tradicional se apresenta como um projeto de mudança.

A partir desse raciocínio podemos entender que a tradição é um meio de sobreviver às grandes transformações, nas palavras do autor, “a tradição, então, não é o passado que sobrevive no presente, mas o passado que, no presente, constrói as possibilidades de futuro”.

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1. Bruno Lacerra é graduando em Ciências Sociais, Unesp-Marília. Membro do Grupo de Estudos Pensamento Político Brasileiro e Latino-Americano, Bolsista do projeto Tela Crítica e colaborador do Centro de Estudos e Pesquisas Agrárias CPEA, Unesp – Campus Marília – SP.

2. Klass Woortmann possui graduação em Geografia e História pela UFRJ (1956), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal da Bahia (1969) e doutorado em Antropologia Social e Cultural – Harvard University (1975). É professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da UN B. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Teoria Antropológica, campesinato, família, parentesco e patrimônio.

3. Exemplo: O posseiro, movido pela racionalidade economicista (razão econômica) invade terras com o intuito de capitalizar mais recursos, esse episódio se diferencia de uma ocupação de terras pelos filhos de colonos que buscam “restaurar uma tradição centrada na família e no parentesco” na medida em que ela é motivada por razões de ordem da tradição. Nesse ultimo caso se subverte a ordem econômica para reinstalar a ordem moral.

Referência Bibliográfica:

WOORTMANN, K. Com parente não se neguceia. O campesinato como ordem moral. Brasília: Editora Universitária de Brasília/Tempo Brasileiro, 1990. ( Anuário Antropológico/87)

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