Transposição do Rio São Francisco: “nunca na história desse país passamos por um nível de corrupção desse tipo”.

Adriane Camargo

Mirian Claudia Lourenção Simonetti

“Com um terço do custo da transposição do rio São Francisco seria possível construir um grande sistema de abastecimento de água para toda a região Nordeste e abastecer todas as casas da região”, constata o engenheiro.”

É com essa declaração que se inicia o artigo “Transposição do rio São Francisco”, publicado dia 29 de março de 2012 no site da Adital, que conta com uma entrevista concedida, ao Instituto Humanitas Unisinos, por João Abner Guimarães Jr.,doutor em Engenharia Hidráulica e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Com a aproximação da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro dias 13-22 de junho, Abner almeja a retomada de uma discussão crítica sobre a transposição do Rio São Francisco. Para tanto, João Abner indaga sobre a quem interessaria o aumento em mais de 70% o valor das obras de transposição do Rio São Francisco.

Para o engenheiro, não há interesse, por parte da “indústria da seca”, em concluir as obras do projeto de transposição do rio, já que há uma ampla defesa de aumento da aplicação de recursos no projeto. “Eles defendem a ampliação dos recursos financeiros porque defendem o grande lobby das indústrias que mandam neste país, entre elas, a indústria da seca” – afirma ele. Denuncia, ainda, o envolvimento da elite local no empreendimento, sendo essa “a estratégia das elites do Nordeste: criam um projeto de desenvolvimento para se apropriarem de recursos públicos.”.

Abner avança nas denúncias ao revelar que o projeto citado não visa assegurar o acesso à água por parte dos sertanejos, mas sim garantir o abastecimento hídrico dos redutos do agronegócio na região. Segundo o professor, “havia um discurso de que a obra seria realizada e teria um cunho social. Nós já sabíamos que ela seria feita para atender à indústria da seca e que não teria nenhum compromisso com a economicidade”. Com essa afirmação, Abner critica abertamente um dos principais argumentos utilizado pelos defensores da obra, o de viabilizar o abastecimento de água às populações residentes na região do semiárido nordestino.

Ele ainda alega que denúncias de fraudes foram realizadas junto ao Ministério Público Federal (MPF), mas que, apesar de terem sido encaminhadas para o Supremo Tribunal Federal (STF), nunca foram julgadas. Escandalizado com o descaso atribuído à questão, Abner declara: “Onde está o Tribunal de Contas da União? Ninguém se manifesta. Isso é um escândalo. Por que os movimentos sociais não vão para a rua? Por que não denunciam? Nunca na história desse país passamos por um nível de corrupção desse tipo.”.

O professor também aponta para o que seria, segundo ele, uma questão fundamental: como promover um projeto de desenvolvimento para a região nordestina de modo que esse seja implementado de forma independente aos interesses que permeiam a elite local, que, por sua vez, estão vascularizados nas instituições estatais. Sem dúvida alguma, um grande desafio para a região e para o país, que ocupa a 73° colocação, entre os 182 países pesquisados, no Índice de Percepção de Corrupção, divulgado, em 2011, pela ONG Transparência Internacional.

*Para acessar o texto original na íntegra, clique aqui!

Anúncios

8 responses to this post.

  1. Posted by Paulo Afonso on 12 de abril de 2012 at 4:15 PM

    O Prof. João Abner é uma honrosa exceção no Rio Grande do Norte em que todos, políticos de esquerda e de direita, clero conservador ou progressista, estudantes, professores, população civil ou militar, movimentos populares, etc. todos, repito, apoiam a transposição. Isso ficou claro nos sucessivos debates entre o Prof. João Abner e o Vice-Governador do Estado. Durante o debate, a reportagem entrevistava pessoas nas ruas que, invariavelmente se manifestavam favoravelmente à transposição.
    Entretanto, o professor tem razão em alguns aspectos. É uma pena que em muitas obras do Brasil haja corrupção e que nas obras em que o TCU não detecta qualquer tipo de corrupção, como é o caso da transposição do Rio São Francisco, os orçamentos sejam mal feitos e as empreiteiras abandonem os canteiros.
    Como o professor afirma, grande parte das obras está paralisada porque as empreiteiras perderam o interesse. Nas novas licitações, inevitavelmente haverá acréscimo no custo do projeto.
    Se lhe dou razão nesse aspecto, não lhe dou razão em sua afirmativa de que com um terço do orçamento seria possível dotar o Nordeste Setentrional de água suficiente para o seu desenvolvimento. Isso é impossível por uma razão muito simples: a água disponível nessa região é insuficiente. O Estado de Pernambuco tem volume per capita de 1.320 m3/ano, inferior ao que a ONU considera como mínimo indispensável ao desenvolvimento da região.
    A ideia do Prof. João Abner de construir uma grande rede de distribuição unindo os grandes reservatórios da região esbarra em uma constatação lógica: os reservatórios são muito distantes uns dos outros e a topografia é irregular. Isso implicaria de aneis com tubos de grande diâmetro além de estações elevatórias. Se pequenas obras no Nordeste não chegam a seu final, como ocorre cotidianamente, que dirá de uma grande obra

    Responder

    • Posted by Wagner on 22 de maio de 2012 at 10:12 AM

      Não é só no Nordeste que as obras não chegam no final. Aliás este é um argumento muito vago igualmente as afirmações de João Abner, acho que há preconceito por parte de algumas pessoas ao afirmarem isso, pois o Ceará construiu e terminou durante um século, um conjunto enorme de açudes de grande e médio portes em todo seu terrítorio, contudo este conjunto não tem uma fonte, um rio perene.
      João Abner na verdade não tem apresentado argumentos técnicos realmente válidos e convicentes para definir essa obra como cara e pouco eficiente. Tranpor águas de um rio não algo novo e nem tão pouco uma obra desnecessária, por exemplo se não fosse a transposição de águas do rio Colorado nos Esatados Unidos a cidade de Fênix não teria água sufiente para abastecer sua população, seria inviável viver nela, pois se encontra em uma região semi-árida.
      E o caso brasileiro no Nordeste ainda é mais grave e de maior amplitude, tendo em vista que só a região metropolitana de Fortaleza já tem cerca de 4 milhões de habitantes, e o Ceará não tem águas subterrâneas,nem rios perenes durante todo ano, o sistema de açudes em um perído de seca prolongada pode apresentar graves problemas, uma vez que além da taxa de evaporação alta do espelho de água, não existe segurança hidrica nenhuma. Como abastecer 4 milhões de pessoas se houver seca prolongada? logicamente não dá para utilizar carros pipas devido a dimensão populacinal. Será que uma obra que visa a necessidade básica de água para milhões de pessoas pode ser considerada cara? O trem bala entre o Rio/São Paulo vai custar cerca de 50 bilhões, dá para fazer 10 trasnposições do Rio São Francisco, ou seja o que existe na verdade é falta de sensibilidade e uma eterna perseguição de parte da impressa Rio/São Paulo contra os nordestinos. Visto que tecnicamente a obra viável e socialmente tem um importãncia muito grande para ser considerada cara. E para finalizar todos os argumentos contra essa obra são apenas sensacionalismo barato de pessoas que querem aparecer e não conhecer o assunto de forma plena.

      Responder

    • Prezados senhor, considero que alguma inciativas de uso da cisterna para captação da água de chuva, bem como o uso de plantas e animais adequados ao ecossistema da região sejam iniciativas adotadas pelo sertanejo que devemos valorizar.
      abs mirian

      Responder

      • Posted by Wagner on 23 de maio de 2012 at 9:29 AM

        A implantação de cistemas não resolve, isto é fato, basta percorrer o sertão do Nordeste e vamos encontrar todas as cisternas secas, os pequenos açude secos e animais morrendo.Estive em uma assentamento do incra na semana passada, na localidade de mufunbo em Madalena-Ce. Simplesmente todas as Cisternas estavam secas, a capacidade dessas cisternas é de apenas 10.000 litros. Outra detalhe é que não dá para absatecer as cidade que estão no sertão com cisternas.Como implantar em uma cidade de 20.000 habitantes um cisterna em cada casa, e os aprelhos públicos hospitais, escolas e etc. Essa “balela” de cisterna é maior farsa que já inventarão, uma vez que só serve para pequenas comunidades rurais isoladas, além disso só mantêm uma família por um período máximo de 05 messes de estiagem, ou seja, é apenas uma medida limitada e paliativa que não dá segurança hídrica nenhuma. Logicamente é necessário a construção de reservatórios grandes(que têem uma menor evaporação de água na sua lâmina, devido a profundidade) juntamente com a interligação de açudes um com os outros e do maior deles com um rio perene. É assim que Israel faz e assim que foi feito no desserto do Arizona no Estados Unidos.

        Desafio qualquer um a ir no setão no Nordeste, nas pequenas comunidades e encontrar alguma cisterna cheia. Na verdade todas ela secaram ou já estão quase secando, até porque isso é um medida temporal e paliativa não resolve o problema como todo, não se faz suficiente para sobrevivência das pessoas.

        Como o sertanejo vai viver se não tiver água para suas pequenas plantações?. A implantação de cisternas também não resolve este problema, e os repasses do seguro safra do Governo Federal são verdadeiras esmolas. Como uma família de quarto pessoas consegue sobreviver com 80 reais do seguro safra por mês?, com todos os animais mortos(gado, galinas e etc) sem ter colhido um grão de feijão.

        Acho que as pessoas que comentaram aqui nunca nem visitaram a região do poligano da secas, não conhecem a realidade de quem vive lá. Acredito que a única maneira de se resolve o problema da seca do Nordeste dando segurança hídrica para população, seja através de transposição de águas, interligação de açudes, gestão hídrica e distribuição da água que chega nos açudes paras as comunidades e cidades. Essa é exatamente a lógica da transposição do São Francisco. Quem é contra isso, na verdade é contra a sobrevivência de milhões de brasileiros que vive no poligano das secas, é contra o Nordeste, é contra a diminuição da pobreza. Não existe obra cara o suficiente que pague a diginidade humana do direito a água, do direito de sobrevivência. Hora se o Governo Federal gastou bilhões com o PAN no Rio, Gastou bilhões com metrô em São Paulo, gastou bilhões com a linha vermelha no Rio, gastou bilhões com tanta outras obras caras e não pode gastar com uma obra que o principal objetivo é a sobrevivência humana.

  2. Prof. João Abner ainda bem que temos no senhor uma referencia critica diante de tanta perversidade com o meio ambiente e com dinheiro publico.

    é

    Responder

  3. Posted by Paulo Afonso da Mata Machado on 11 de outubro de 2012 at 4:12 PM

    O Wagner deixou clara a importância da obra de transposição de águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional. Seu comentário está irretocável. Gostaria apenas de acrescentar que há um livro intitulado Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco, em que os autores criticam muito a obra. No entanto, como eles não convesaram entre si, em alguns casos, os argumentos de uns vão contra os argumentos de outros.
    O que mais me surpreendeu é que o coordenador do livro é prefeito eleito de Aracaju e a capital sergipana é beneficiária de uma transposição de águas do próprio Rio São Francisco.
    Escrevi um livro contestando as críticas intitulado A Outra Face da Moeda – Verdades e Mitos sobre a Transposição de Águas do Rio São Francisco para os Estados de Pernambuco, Alagoas, Ceará e Rio Grande do Norte.
    Entretanto, gostaria de dizer que o projeto tem suas falhas e uma delas é o uso de canais de concreto. Como há grande variação térmica entre o dia e a noite, o concreto fica sujeito a dilatação e a retração e acaba por se romper.
    Para mim, seria melhor que os canais fossem escavados no solo. Ficariam mais baratos e mais ecológicos, pois poderia ser plantada mata ciliar às suas margens.

    Responder

  4. Posted by mantovanibezerra on 31 de dezembro de 2012 at 7:51 AM

    O Governo Federal do PT gastou BILHÕES foi em propaganda.

    Responder

    • Posted by Paulo Afonso da Mata Machado on 9 de janeiro de 2013 at 8:45 AM

      A leitora que assina mantovanibezerra está equivocada.
      Não foram gastos bilhões de reais com propaganda.
      O Governo está na política certa: evitar colocar lenha na fogueira.
      Portanto, a meu ver, qualquer propaganda com relação ao projeto de transposição deve ser suspensa.

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: