Perdemos um grande geógrafo: morre Aziz Ab’Saber

Professor emérito da FFLCH-USP, Ab’Saber foi autor de estudos e teorias fundamentais para o conhecimento dos aspectos naturais e dos impactos ambientais no Brasil.

Aziz Nacib Ab’Saber nasceu em São Luís do Paraitinga, em 24 de outubro de 1924. Desenvolveu ao longo de extensa carreira centenas de pesquisas e tratados de relevância internacional nas áreas de ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia, arqueologia e geografia.

Foi presidente de honra, presidente e conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Era membro da Academia Brasileira de Ciências. Desenvolveu trabalhos no Instituto de Estudos Avançados da USP até o dia anterior ao seu falecimento.

Ab’Saber morreu antes de ver publicada sua última obra, que será o terceiro volume da coleção Leituras Indispensáveis, a ser publicado pela SBPC.

O livro faz uma homenagem ao trabalho dos primeiros geógrafos no interior do Brasil, como José Veríssimo da Costa Pereira e Carlos Miguel, e às primeiras expedições de Candido Mariano da Silva Rondon, o Marechal Rondon (1865 a 1958). “Essa é uma homenagem a eles”, disse Aziz, em entrevista ao Jornal da Ciência. O livro contempla também trabalhos sobre a cidade de São Paulo.

Segundo Helena Nader, presidente da SBPC e membro da Coordenação de Área de Biologia da FAPESP, apesar da aposentadoria, Ab’Saber não deixou de se manter em plena atividade acadêmica e intelectual e costumava ir à sede da SBPC duas vezes por semana.

“O professor Aziz mantinha uma lucidez impressionante e estava extremamente ativo, dedicando-se a causas da máxima importância para a humanidade. Nos tempos recentes, ele vinha lutando para que fossem ouvidas suas sérias críticas à proposta de reforma do Código Florestal, que, em sua visão, não leva em consideração o zoneamento físico e ecológico do Brasil. Sua morte foi uma perda irreparável”, disse Nader à Agência FAPESP.

Ab’Saber recebeu diversos prêmios, como o Jabuti em ciências humanas (1997 e 2005) e em ciências exatas (2007), o Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia (1999), a Medalha de Grão-Cruz em Ciências da Terra da Academia Brasileira de Ciências e o Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente (2001). Ganhou também o Prêmio Fundação Conrado Wessel em 2005 e recebeu o título de professor honoris causa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2006.

O professor Aziz influenciou a formação de duas gerações de geógrafos, botânicos, zoólogos e ecólogos brasileiros. Poucos são os cientistas com tamanho impacto na criação e amadurecimento do pensamento científico em sua área de atuação, o que dizer de um pesquisador que extrapolou os muros da academia e se transformou em uma referência para toda sociedade”, disse Carlos Alfredo Joly, coordenador do BIOTA-FAPESP e diretor do Departamento de Políticas e Programas Temáticos da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Outra característica especial de Ab’Saber, de acordo com Nader era a preocupação em jamais perder o contato com os jovens. Na reunião anual da SBPC de 2011, em Goiânia, sua conferência teve público recorde, formado especialmente por estudantes interessados em ouvir e ver o mestre de perto.

Ab’Saber chegou a distribuir autógrafos na ocasião. “Dificilmente encontramos um grande cientista que ainda dedica seu tempo a jovens. O professor Aziz se entusiasmava com essa interlocução”, disse Nader.

Código da Biodiversidade

Ab’Saber era um importante crítico do projeto de reforma do Código Florestal brasileiro, em tramitação no Congresso Nacional. O cientista defendia a criação de um Código de Biodiversidade para contemplar a preservação das espécies animais e vegetais em todos os biomas brasileiros.

“Em face do gigantismo do território e da situação real em que se encontram os seus macrobiomas – Amazônia Brasileira, Brasil Tropical Atlântico, Cerrados do Brasil Central, Planalto das Araucárias e Pradarias Mistas do Brasil Subtropical – e de seus numerosos minibiomas, faixas de transição e relictos de ecossistemas, qualquer tentativa de mudança no Código Florestal tem que ser conduzida por pessoas competentes e bioeticamente sensíveis. Por muitas razões, se houvesse um movimento para aprimorar o atual Código Florestal, teria que envolver o sentido mais amplo de um Código de Biodiversidades, levando em conta o complexo mosaico vegetacional de nosso território”, destacou Ab’Saber em artigo publicado na revista Biota Neotropica, do programa BIOTA-FAPESP. Ab’Saber

Segundo Ab’Saber “Enquanto o mundo inteiro trabalha para a diminuição radical de emissão de CO2, o projeto de reforma proposto na Câmara Federal de revisão do Código Florestal defende um processo que significará uma onda de desmatamento e emissões incontroláveis de gás carbônico, fato observado por muitos críticos em diversos trabalhos e entrevistas”.

Para Ab’Saber “A utopia de um desenvolvimento com o máximo de florestas em pé não pode ser eliminada por princípio em função de mudanças radicais do Código Florestal, sendo necessário pensar no território total de nosso país, sob um ampliado e correto Código de Biodiversidade. Ou seja, um pensamento que envolva: as nossas grandes florestas (Amazônia e Matas Tropicais Atlânticas); o domínio das caatingas e agrestes sertanejos; planaltos centrais com cerrados, cerradões e campestres; os planaltos de araucárias sul-brasileiros; as pradarias mistas do Rio Grande do Sul; e os redutos e minibiomas da costa brasileira e do Pantanal mato-grossense, e faixas de transição e contrato de todos os domínios morfoclimáticos e fitogeográficos brasileiros”.

Assista o vídeo com a entrevista de Ab’Saber ao programa Roda Viva, em que o geógrafo fala sobre o aquecimento global e as principais discussões da ECO-92, cúpula que terá sequência esta ano, com a RIO+20: http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/331.

Vamos homenageá-lo dando continuidade a sua luta pela biodiversidade do ´país e contra as mudanças no código Florestal como querem os elites agrárias atrasadas.

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