Sociedade de consumo e os resquícios ainda existentes de ética


Milena Takamiya Sugahara


            Ser um ser humano na atual sociedade de consumo já pressupõe uma vida norteada por necessidades culturais que sem a devida reflexão podem fazer das atividades rotineiras e cotidianas um sonho fadado ao próprio desprezo sobre si mesmo. Além do mais, a sociedade do consumo se suporta mediante a uma base pautada nas discrepâncias sociais, que inviabilizam o acesso aos pressupostos do Estado de Bem-estar social, saúde, educação, acesso à informação, saneamento básico, e consequentemente se os abastados sociais engolem a informação e cultura de massa, as populações assoladas pela miséria e pobreza têm acesso ainda mais limitado a ideologias que não advém do capitalismo e permitiriam a libertação da vida humana.

            Eis a realidade a qual nos deparamos, publicidades em massa e consumismoem massa. Segundo, o documentário A era da Estupidez, o consumismo está tão exarcebado e obviamente mais grotesco ainda nos países “desenvolvidos”, que hoje um americano consome 50 vezes mais energia elétrica que um queniano e se os 6,5 bilhões de habitantes do mundo consumissem como um europeu ou um japonês seriam necessários os recursos naturais de 2 planetas Terra. Particularmente, um grande incômodo, o mesmo documentário bibliografa a vida de uma nigeriana com a esperança de um “american way of life”, um dia prometida pela Shell, multinacional americana, que originou um novo conceito de se pensar o capitalismo inexcrupuloso, “a maldição do recurso”. Termo originado devido a contradição que a exploração do petróleo na Nigéria provocou, pois ao invés de melhorar a vida dos habitantes locais com os investimentos advindos da instalação da empresa, a população local se viu diante de mais miséria e pobreza. Apenas culpar todo e qualquer ser humano que engole a alienação do desprezo aos recursos do planeta é um modo muito simplista de compreender o fenômeno social do consumismo. Assadourian (2010) sintetiza de forma bastante clara o raciocínio:

“Os seres humanos estão cravados em sistemas culturais, são moldados e refreados por suas culturas e, quase sempre, agem apenas de acordo com as realidades culturais de suas vidas. As normas, símbolos, valores e tradições culturais que acompanham o crescimento de uma pessoa tornam-se “naturais”. Assim, pedir às pessoas que vivem em sociedades de consumo que restrinjam o consumo é o mesmo que lhes pedir para parar de respirar – elas conseguem fazê-lo por um momento, mas depois, arquejando, inalarão ar outra vez. Dirigir carros, andar de avião, ter casas grandes, usar ar condicionado… não se trata de escolhas decadentes, mas simplesmente de elementos naturais da vida – pelo menos, de acordo com as normas culturais presentes em um número crescente de culturas de consumo no mundo todo. No entanto, embora pareçam naturais para aqueles que são parte dessas realidades culturais, esses padrões não são nem sustentáveis nem manifestações inatas da natureza humana. Eles se desenvolveram ao longo de séculos e estão hoje sendo reforçados e disseminados a milhões de pessoas em países em desenvolvimento.” (Assadourian, 2010, p.3)

                Nessa perspectiva, as ideologias em prol da preservação ambiental tem que ter o cerne de sua base a resistência e o engajamento eternizado desde seus primórdios, pela própria significância de nadar contra uma corrente, ser uma mobilização de cunho biopsicossocial contra-hegemônico. Isso tange, a um discurso eternizado pela Carta do Cacique de Seattle ao presidente norte-americano, que se tornou um símbolo para todos que acreditam na necessidade de preservação ambiental. A carta se contextualiza pela proposta de permuta da reserva dos índios em detrimento a outra terra.

“Vocês devem ensinar as suas crianças que o solo a seus pés, é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças, o que ensinamos as nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo que acontecer a terra, acontecerá aos seus filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Este destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.

Onde está o arvoredo? Desapareceu.

Onde está a águia? Desapareceu.

É o final da vida e o início da sobrevivência.” (ONU,1854)

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A carta do Cacique, somada a idéia do consumismo, engendra as possibilidades verdadeiras das mudanças paradigmáticas, pois a sociedade de consumo já foi constatada e já é de senso comum compreendê-la como promotora de desrespeito a dignidade humana, e a carta do Cacique demonstra a ética necessária a cada ser humano para a construção de um mundo melhor. Não consigo entender o ser humano, ele sabe que destrói a natureza, que promove a miséria, a pobreza, que faz guerra para busca desenfreada de recurso, obrigada a fuga de milhões de refugiados, que suas monoculturas destroem a qualidade dos solos. Com certeza eu passaria a enumerar milhares de fatos vinculados a crise ambiental.

            Riqueza, luxúria, bens de consumo, esse é o caminho? Sinto que infelizmente, já temos o caminho e a solução, mas infelizmente os alienados seres humanos continuam desenfreados no seu consumismo, em busca que particularmente a muitos tenho a certeza que não promove a felicidade plena. Muitas vezes vejo seres humanos se emocionarem por serem altruístas, mas a maioria das vezes vejo seres humanos buscando incessantemente um poder e um reconhecimento social, pautado nas melhores vestimentas, nos carros de luxo, nas mansões, na melhor tecnologia possível e viável.

            Essas reflexões perspassam a simples idéia de refletir e se tornam um desabafo. Particularmente, quanto mais eu entendo a sociedade humana, mas eu me entristeço, pois é óbvio há o que se fazer, há um desenvolvimento sustentável, que não seja engolido pelo sistema capitalista e destoado da idéia primordial. HáHHá

Há como diminuir a fome, as doenças transmissíveis que assolam principalmente há África, mas há primeiro de unirmos as forças humanas para o bem comum.

            A questão ambiental é principalmente uma questão ética, que deve ser punida rigorosamente. Chega de impunidade. Podemos equiparar a idéia de um latrocínio, o capitalismo das transnacionais roubam os recursos dos países assolados pela pobreza, e matam silenciosamente suas populações com a cólera, leishmaniose, a aids, a malária, a diarréia infantial, principalmente as doenças tropicais e carências nutricionais, crime silencioso e ainda qualificado. Seria ainda pior se sintetizássemos minimamente a história, veríamos atrocidades como a escravidão.

            Exemplos são inúmeros, enquanto isso, mesmo tristes conheceremos ainda mais as entranhas desses problemas latentes, na esperança que um dia os dizeres do Cacique perspassem a consciência da maioria da população e principalmente dos detentores do poder, que estes ambicionem a liberdade, a paz, o bem-estar e a harmonia entre todos os elementos do Terra.

Referências:

Documentário A era da estupidez

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano
Texto de domínio público distribuído pela ONU
ASSADOURIAN, E. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo. In:______ Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável. Salvador: 2010, p. 3-20. cap 1.

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