O consumo da Essência


Vanessa Aparecida da Conceição

 

 

“Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola”.

(Manoel de Barros)

 

 

            Tiramos da terra e o que damos à ela? Estamos vivendo na era do Ego-consumismo, como se tudo no mundo, na vida fosse ilimitado, como se não houvesse fim.

            Água desperdiçada, lixo aos quatro ventos, fumaça dos carros, dos trens, das fábricas, já não se respira mais, já não se vê mais a rosa nascendo no meio do asfalto, só se vê o asfalto. A humanidade está perdendo a essência da natureza, ou melhor, está destruindo tal essência pela venda, pela compra e pela troca.

            Onde foi parar a importância da natureza, a importância de se viver nela e não somente dela? Ela foi parar no capitalismo, onde não se mede a importância de ser e de se ter a natureza. O capitalismo tirou a importância, o encantamento que a natureza produz em nós, além de ter tirado essa essência, tirou também as árvores, sujou os rios, desapareceu com espécies e nos deu a (im) possibilidade de consumir o falso. O capitalismo fez-nos acreditar que o som dos ruídos dos motores da Fórmula 1 é mais importante do que o som das águas e das rãs para os nossos ouvidos. Não se há mais transfusão com a natureza.

            No texto Ascensão e Queda das Culturas de Consumo de Erik Assadourian, o autor afirma que o consumismo é uma construção social, estando os seres humanos cravados em sistemas culturais, moldados e refreados por suas culturas. Essa construção fez do consumismo algo de extrema importância para diversas sociedades ajudado pela mídia que manipula as pessoas a serem consumidoras desenfreadas. A mídia informa e forma consumidores. O anúncio traz o desejo do produto e a vontade do consumo. O consumo traz a banalização, a superficialidade e a felicidade mascarada.

            A sustentabilidade é um debate que está em voga. Mas qual é mesmo o papel da sustentabilidade? Algo que já virou um negócio há muito tempo. A sustentabilidade virou algo rentável, bonito de se dizer e de promover, mas o que de fato acontece? Pegamos o exemplo do festival SWU (Starts With You), que em português significa “Começa com você”, é um movimento em prol da conscientização  pela sustentabilidade, onde ocorre diversos fóruns e debates sobre questões de como construir um mundo melhor. Contudo, paralelo à esses debates, ocorre o festival de música com várias bandas e artistas consagrados e o que a mídia divulga? O que será de maior interesse econômico, ou seja, os shows. Esquecendo dessa maneira o real propósito do evento, ficando da sustentabilidade só o nome e não a ação.

            Falamos do meio ambiente como se não fizéssemos parte dele, como se somente fosse meio e não um todo. Tratamos a natureza como algo descartável que se usa e joga fora, como se o amanhã não existisse, como se ela fosse eterna, mas o que não estamos enxergando é que ela não é, assim como não somos. Ninguém mais olha para as estrelas, para as árvores. Ninguém mais escuta os passarinhos, ninguém mais anda com os pés no chão, é sempre com o tênis mais caro, a sandália importada. Os instantes estão se perdendo, consumir é mais satisfatório do que sentir a grama nos seus, nos meus, nos nossos pés.

            O mundo contemporâneo é consumista. O celular que uso vem com o carregador ecologicamente correto, o caderno que escrevo são com folhas recicladas, a escova de dente é ecologicamente correta, o chinelo, o detergente e milhares de outras coisas mais. O ecologicamente correto é cria do capitalismo, ele traz a ilusão de que consumindo estes produtos estamos ajudando o meio ambiente – pode até ser que sim – mas na realidade, estamos continuando a consumir. Quando na verdade deveríamos é estar em contato com natureza diretamente, pois deixamos de viver para sobreviver, contudo, a vida é mais bonita.

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