Mundo contemporâneo e a crise ambiental

Cassia Adriana Lussani

A discussão sobre a capacidade de sustentabilidade da vida na terra seguindo o atual modelo consumista se faz a algumas décadas. A degradação da água, do solo, do ar e por conseqüência, dos alimentos que consumimos, mostram que nosso atual modelo produtivo deixa muito a desejar quando se trata de manutenção dos recursos naturais. A questão ambiental entrou nas pautas das discussões mundiais a algum tempo, e hoje é representada no cenário brasileiro com a discussão do novo Código Florestal. Essas discussões seguem, em sua maioria, pelo viés da luta de ambientalistas e autoridades científicas contra as grandes corporações e latifundiários, com o intuito da proteção de matas nativas e nichos ecológicos.

O pensamento comercial visa somente a satisfação da garantia de maior lucro, não se considerando os direitos de quaisquer seres vivos, exceto os promulgados por leis, estas muitas vezes não sendo garantidas na atuação da mesma forma como estão descritas nas constituições. A formação desse pensamento materialista é amparado hoje pela ideologia do consumismo que remonta a todo um processo que iniciou-se com a Revolução Industrial Inglesa. Porem, antes disso já havia se consolidado a concepção de exterioridade do homem com a natureza. Um trecho da Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-Americano, ele diz:

Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas.

Isto é, a relação do homem ocidental com a natureza se estabelece de forma exterior e não correlacionada, podendo-se usar como análise esse pequeno trecho, onde evidencia-se que a relação de alguns povos indígenas está mais ligada a consciência de que se faz parte do ambiente em que vive e que, após a morte, nele se continua. Enquanto que na maioria das sociedades ocidentais a idéia de morte se faz relacionada com a idéia de ir para o céu. Essa lógica de pensamento leva a se considerar que após a morte não se faz parte desse ambiente, e que existe outro, perfeito que permanece a sua espera.

Dessa forma, temos que a nossa forma de pensar os espaços de vida e permanência nesse ambiente são como transitórias, e, conseqüentemente, pensar no que há por vir não é algo fundamental.

A produção atual de bens de consumo não é sustentável, haja visto que os recursos naturais que podem ser extraídos são finitos, porem, há toda uma ideologia consumista e ampliada pelo marketing que passa a idéia de que todos podem possuir o que almejam, além de que, o que você consome faz parte da formação da sua identidade e irá lhe trazer a felicidade. Esse consumismo além de não ser viável ambientalmente, pois os recursos são escassos; financeiramente desigual, pois se sabe que a renda se encontra concentrada nas mãos de uma minoria; também não tem provas eficazes de garantia de felicidade e bem-estar, se considerando a propagação da depressão como uma doença moderna, assim como os problemas de saúde, ligadas aos hábitos sedentários de vida é dietas mau equilibradas. Os confortos da vida moderna, como os carros, por exemplo, dificilmente conseguem abarcar as expectativas do momento da compra. Com o aumento da produção de automóveis também veio, conseqüentemente, o aumento do trafego nas ruas, o resultado disso são horas de engarrafamento em cidades mais populosas. O tempo desgastado em um engarrafamento e o stress gerado por essa situação não condizem com o ideal de velocidade e dinamismo nas pistas, esta sendo a idéia vendida por esse objeto de consumo. Os efeitos negativos causados pelo stress afetam tanto o ocupante do carro mais ultrapassado como o do mais moderno, portanto, será que todas as inovações geram maior qualidade de vida? Com uma condição de mobilidade mais confortável, seria necessário a utilização de recursos naturais para a produção de ar-condicionado e de aparelhos de dvd’s para os ocupantes dos automóveis?

Na mesma questão de ordem prática relacionada com a qualidade de vida, podemos considerar que a oferta de alimentos aumentou consideravelmente, principalmente em países ricos. Mas isso trouxe algum avanço na qualidade de vida? Com o massivo uso de agrotóxicos para a manutenção das plantações, e a construção de todo um processo agrícola moderno baseado nessa produção em larga escala para a venda, vemos que a parte de alimentos que chega aos consumidores estão contaminados com pesticidas, fungicidas e herbicidas. O restante que não tem espaço para o comércio, dependendo de fatores como a oferta e a procura, acaba sendo descartado na própria lavoura de produção, não chegando a ser distribuída em regiões onde a fome ainda assola milhares de pessoas.

Portanto, por mais que os meios de comunicação coloquem como a nossa época um período de fartura e de possibilidades infinitas, estamos na realidade presos ao que sempre estivemos: ao ambiente em que vivemos. Se tem-se um padrão de vida alto em países desenvolvidos, tem-se o acesso a tudo que é vendido, mas com os ônus dos agrotóxicos e stress; se habita-se uma região onde o nível financeiro é baixo, tem-se ainda a fome e graves problemas sociais.

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