Desenvolvimento sustentável, você não está ajudando!

Alcides Renofio Neto

 

As palavras são instrumentos políticos. Palavra e conceito não se identificam necessariamente. Não atoa a política econômica de Estado da ditadura militar brasileira nos idos da década de 1970 foi chamada Revolução Verde e, sabemos, não diz respeito sobremaneira a qualquer movimento ecologista ou ambientalista, muito menos qualquer movimento revolucionário, a despeito das palavras que pretensamente se apresentam. Sabemos que a Revolução Verde diz respeito a uma política econômica de incentivo as tecnologias agrícolas, genéticas, e químicas, que estimularam um modelo de desenvolvimento agrícola e econômico, de ocupação de territórios e usos de recursos naturais, de tal forma a favorecendo grandes corporações e fortalecendo o agrobusiness, o agronegócio voltado ao mercado externo.

Desenvolvimento está automaticamente associado à ideia de incremento, melhoria e crescimento. Este automatismo (midiaticamente construído, sem dúvida) cumpre sua função política: criar e estimular uma sensibilidade, uma visão de mundo clivada por essa noção positiva de desenvolvimento enquanto fim ultimo de nossa vida em sociedade. Dizem-nos as professoras Fátima Cabral e Lúcia Morales[1]: “as estruturas atuais de poder se dirigem não apenas para a produção de bens e serviços, mas de igual modo para a produção de sintaxes e signos que oferecem significados à experiência”. Essa sensibilidade domesticada trocará de carro tanto quanto for possível, manterá seus celulares sempre up to date e doará algum trocada para uma ONG que se compromete com o replantio de arvores em alguma zona desmatada.

            O tão propalado “desenvolvimento sustentável” casa duas palavras cuja ideia vem expressar uma alternativa pretensamente POSSIVEL para o desenvolvimento do consumismo, da vida para o consumo que vimos construindo. Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que é capaz de aliar as forças produtivas, manejar a monstruosa soma de recursos hídricos, naturais e fósseis e impactar o meio ambiente na menor monta possível, reduzindo nossa pegada ecológica no planeta, garantindo a sobrevivência do sistema-mundo que emergiu com o colonialismo, com o industrialismo e o imperialismo, com o capitalismo financeiro e afins.

            Edgar Morin certa vez dissera que o desenvolvimento – este que fora outra coisa semelhante ao que hoje dá o ritmo da sociedade do consumo – era de fato uma ideia subdesenvolvida: subvertendo o sentido positivo do termo, somos indicados a uma perspectiva crítica que aponta para a insustentabilidade (negatividade) do padrão de desenvolvimento posto em prática pelas máquinas financeiro-estatais-coorporativas ao redor do globo. O pensamento único que toma conta das corporações midiáticas e capilarmente atravessa das telas para os lares, os PAC’s de todas as sociedades em franco “desenvolvimento” – e suas Belo Montes -, a corrida por esse “desenvolvimento”, pela renovação das frotas de veículos, pela “democratização” ostensiva de bens e serviços os mais diversos, todos estes movimentos calcados no processo de acumulação do capital estão incutidos hoje em nosso ideal de desenvolvimento, e mais: a um preço ambiental baixíssimo, insistem.

             Essa noção desenvolvimentista, encarnada inclusive por vários matizes esquerdistas, quer levar internet banda larga, persianas, serviços de ponta e autoestradas à todos os brasileiros, equiparando-nos com nossos conviveres norte-americanos e europeus, provando nosso desenvolvimento em um mundo então a beira da falência… Segundo Erik Assadourian extraímos anualmente 50% mais riquezas naturais (para produzirmos nosso estilo de vida e suas “necessidades” artificiais) do que há apenas 30 anos, numa escala em progressão geométrica que tende a irreversibilidade do fenômeno de superaquecimento global, apontam a ONU e os painéis globais.

*     *     *

            Um exemplo: no já referido artigo, as professoras Cabral & Morales se valem de um aparentemente trivial casório para alcançar uma noção geral de como nos inserimos neste contexto de crise ambiental. O casamento “ecológico” relatado por uma matéria do Estado de São Paulo, em março de 2011, no Caderno Cidades/Metrópole é mote para o raciocínio sociológico. À época, o futuro casal – uma empreendedora social e um engenheiro – propuseram um casamento inovador em termos ecológicos, seguinte à risca a cartilha da sustentabilidade: toda emissão de carbono diretamente promovida por conta do casório seria compensada pelo plantio de mudas de árvores e destinação de dinheiro a ONGs do setor (como a bem conhecida SOS Mata Atlântica). Um casamento-aula de educação ambiental. A noção que atravessa esse ritual com apelo ecológico é fundamentalmente a autossuficiência individual.

            O mundo prementemente social que habitamos produziu uma sensibilidade contraditória, que se pretende autônoma daquele mundo, e permite-se proclamar autossuficiente. Esse subterfúgio é acionado quando um dependente químico diz “ser capaz” de dominar a si próprio e fazer uso “consciente” da droga da qual depende e também quando acreditamos sermos capazes de individualmente salvar o planeta e sustentar a vida que vimos levando se, defensivamente, tomarmos medidas que estão ao nosso alcance…

            Uma enormidade de senhores ilustrados, ilustres ou não, dentro e fora da academia, tem alertado, se valendo das mais diversas mídias, que a “crise ambiental” é um dilema que não podemos enfrentar sem colocarmos em cheque nossa noção de “desenvolvimento” e sem colocar em suspeição noções paliativas, como que eufemismos para a crise, como a perspectiva de um “desenvolvimento sustentável”! Segue um conjunto de hiperlinks que dão a este texto uma leitura possível de acordo com a disponibilidade e intenção de seu leitor. É inocência acreditar que estas linhas tenham, para além de uma análise superficial e inconclusa, algum êxito real de convencimento e conformação de uma nova mentalidade afinada com uma perspectiva de oposição as definições acríticas de “desenvolvimento” e “sustentabilidade” senão comprovando que não falamos de um lugar isolado, e não estamos sozinhos com nossas ideias, bem como se não provarmos que não defendemos interesses particulares, corporativos, empresariais, ou meramente ideológicos, e sim, um bem comum: o direto a uma relação distinta com a natureza que garanta a produção e a reprodução da vida social dos mais diversos grupos sociais, etnias e populações em nosso morada, Terra.

 

Carta do Cacique Seattle (1855)

Documentário: Uma verdade mais que inconveniente (2011)

Documentário: A era da estupidez (2009), partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9.

Texto: Ascensão e queda das culturas do consumo (2010)


[1] A citação compõe o artigo A trágica sustentabilidade em um mundo sem transcendência, presente na org. de Mirian Claudia Lourenção Simonetti, chamada A (in)sustentabilidade do desenvolvimento. São Paulo – Cultura Acadêmica; Marília – Oficina Acadêmica, 2011.

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