Rumo a um outro paradigma de sustentabilidade

Fábio Marques Mendes

 


           

O documentário A Era da Estupidez (2009) apresenta um arquivista solitário, interpretado por Pete Postlethwaite, que vive num mundo devastado pelo aquecimento global e que consome seu tempo catalogando o passado. A pergunta central do filme pode ser disposta do seguinte modo: por que a humanidade não tomou providências contra a crise climática quando havia tempo? No objetivo de mapear as possíveis causas desta “estupidez” e assim, propor caminhos para um mundo mais sustentável, recorremos a alguns estudiosos que tratam especificamente sobre a relação entre sociedades ocidentais modernase o meio ambiente.

Assadourian (2010) “desnaturaliza” o consumismo, apontando que ele é construído por um paradigma cultural dominante que tem se presentificado em muitas partes do mundo. Isto é perceptível já que normas, símbolos, valores e tradições, ratificados por instituições sociais dominantes (marketing, mídia, governos e educação), estimulam tal padrão de consumo.

Os fundamentos do consumismose deram a partir da última década do século XVII na Europa, no contexto de mudanças sociais[1].Para o autor, todavia, carecemos urgentemente do cultivo de novas culturas de sustentabilidadepara que alcancemos vidas melhores e mais longas. Para isto, então, se faz necessário uma transformação cultural: da cultura do consumismo para a cultura da sustentabilidade.

Porto-Gonçalves, por sua vez,afirma que um dos pilares da sociedade modernaé o progresso humano e que este tem sua origem na dominação da natureza por meio da ciência e de sua aplicação tecnológica.Assim, “desenvolvimento” é o nome-síntese da idéia de dominação da natureza (Porto-Gonçalves 2006, p.62)e que está dirigido por um bloco dominante de poder mundial, poder técnico-científico-agro-industrial-financeiro-midiático-militar – e a lista pode se alongar ainda mais. Intrínseco a esta lógica econômica se encontra a colonialidade.

Para este geógrafo brasileiroa modernidade foi constituída com a colonialidade. O discurso científico e técnicotem se apossado de corações e mentes, tem homogeneizado a vida e a cultura e assim, contribuído para o desequilíbrio do planeta. Efeito estufa, aquecimento global, perda da diversidade biológica, poluição industrial das águas, da terra e do ar, desmatamentos, lixo urbano e tóxico, além de outros inúmeros desafios ambientais, estão sob o signo do mito da dominação moderna da natureza[2].

Tanto Assadourian (2010) quanto Porto-Gonçalves (2006) concordam, cada um a seu modo, que a atual crise sócio-ecológica advém de uma racionalidade moderna de vertente econômica e detentora de uma práxis da dominação[3].Para rompermos com esta perspectiva hegemônica é preciso estabelecer novos paradigmas. Se faz necessário, então, um ‘”novo paradigma cultural” (Assadourian 2010, p. 20), não atrelado ao consumismo, mas que proporciona o diálogo de saberes entre modalidades distintas de produção de conhecimento (Porto-Gonçalves 2006, p75).

A carta do cacique Seatlle, dirigida em 1854 ao presidente norte-americano, nos propõeuma outralógicafundante para a relação do ser humano com a natureza. O entrelaçamento das inter-relações natural-humanas não se estabelece pelo viés da dominação, mas sim da comunhão. A idéia de centrismo, expressa pelo moderno antropocentrismo e pelocosmocentrismo com ares de pós-moderno, deve ser renunciadaem prolde uma práxis relacional marcada pela solidariedade. O saber indígena afirma que o homem é um dos fios do tecido da vida, produzido pela terra, ou seja, filho dessa terra, e por isso mesmo deve respeitá-la. Há, assim, uma inter-ligação entre o humano e a natureza, estabelecendo um princípio de irmandade.

Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sucos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro, e o homem – todos pertencem a mesma família (Carta do cacique Seatlle).

Este princípio nos remete à sabedoria antiga. Os termos hebraicos “homem” (adam) e “solo” (adamah) são semelhantese,de acordo com os relatos bíblicos,Adão (de adam), numa referência tanto ao homem quanto à mulher, fora criado diretamente da terra pelo Deus Javé[4]. O antigo mito sumeriano nos conta que Enkidu, homem selvagem e natural e companheiro de Gilgamesh, fora moldado em argila por Aruru, a deusa da criação. Francisco de Assis (1182-1226) louvou ao seu Deus no conhecido Cântico do Sol, se referindo apaixonadamente à criação[5].Sol, lua e estrelas, o vento e o ar, a água, o fogo,a terra, e até a morte, foram todos chamados de irmãos e irmãs[6].

A comunhão de humanidade-natureza, mas inclusive a comunhão desta relação com o sagrado é acionada não apenas pelo cacique Seattle, mas também pelos indianos em suas concepções míticas sobre o rio Ganges (Shiva 2006) e retomado pela perspectiva cristã através de teólogos como L.Boff (2006).VandanaShiva (2006, p.160) expõe que “a idéia de que a vida é sagrada coloca um alto valor nos sistemas vivos e previne sua mercantilização”.Apontamos assim, que conhecimentos alternativos não-modernos, de diferentes épocas e de matizes culturais e religiosas variadas ensejam geralmente uma práxis de não dominação do ser humano com relação ao meio ambiente. Elas precisam ser resgatas e contrapostas ao pensamento moderno-colonial. Desta forma uma nova orientação cultural centrada na sustentabilidade (Assadourian 2010) e na solidariedade pode ser forjada.

Uma nova práxis social precisa necessariamente se apropriar não somente de técnicas e tecnologias, discursos e projetos sociais em prol da sustentabilidade, masestar calcada em uma nova relaçãosócio-ecológica que prescinde dos paradigmas modernos.

 

Referências Bibliográficas

 

ASSADOURIAN, Erik. “Ascensão e queda das culturas de consumo”. In: ____________________ (org). Estado do mundo, 2010: estado de consumo e o consumo sustentável. 2010. Salvador, BA: Uma Ed. 2010. p.3-20.

 

BOFF, Leonardo. “Para onde vai a ecologia?”. In.:______________. Ética da vida. Editora Sextante. 2006.

 

DIEGUES, Antônio Carlos. “O papel das ciências sociais na análise das questões ambientais e a globalização”. In.:____________________. Ecologia humana e planejamento em áreas costeiras. 2ª ed. São Paulo. 2001.p.21-38.

 

LEFF, Enrique. “Globalização, ambiente e sustentabilidade do desenvolvimento”. In.:__________________. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade e poder.  2005. p.15-31.

 

NIGG, Walter. “Francisco, o irmão menor”. In: ____________ & SCHNEIDERS, Toni. O Homem de Assis – Francisco e seu mundo. Petrópolis: Vozes. 1975. p. 8-43.

 

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. “Para além do desenvolvimento” e “Os limites do desenvolvimento”.  In.:____________________. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.  2006. p. 61-75.

 

SHIVA, Vandana. Guerras por água: privatização, poluição e lucro. São Paulo: Radical Livros. 2006.

 

Bíblia Sagrada. Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada.

 

Carta do cacique Seattle ao Presidente norte-americano. Texto de domínio público distribuído pela ONU.

 

A Epopéia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes. 2001.

 

A Era da Estupidez (The Age ofStupid) – 100 min., Reino Unido:2009, de Franny Armstrong (Filme/documentário).

 

 


[1]Dentro disso são citados o aumento populacional, uma base fundiária fixa e o enfraquecimento de fontes tradicionais de autoridade, tal como igrejas e estruturas sociais comunitárias. Estes teriam se somado aos estímulos dos jovens que não mais seguiam o caminho profissional dos pais e nem herdavam a terra como herança (Assaudorian 2010, p.11).

[2] A lógica moderna, em seu domínio sobre o meio ambiente, se apossou, inclusive, do discurso religioso. Muitos criticam os princípios bíblicos judaico-cristãos afirmando que eles

[3] Neste sentido também se movem e Antônio Diegues (2001), Leonardo Boff (2006) eVandanaShiva (2006). O economista mexicano Enrique Leff (2005) aponta que a crise ambiental está calcada em uma racionalidade econômica herdeira da visão mecanicista da razão cartesiana. Esta lógica, inclusive, teria se apropriado do discurso da sustentabilidade tentando reconciliar, ideologicamente, o crescimento econômico e o meio ambiente.

[4]Em Gênesis 2.7 está escrito: “formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra”. É preciso salientar que a literatura bíblica, especialmente o livro de Gênesis, não justifica teologicamente a dominação do ser humano em relação à natureza. Propõe, por outro lado, integração entre ambos centrados em Javé. A antropologia bíblica hebraica estabelece que a relação de domínio do ser humano sobre a criação é consequência imediata do pecado humano. As traduções bíblicas que temos em mãos são modernas e não fazem jus, pelo menos neste caso, ao pensamento hebraico da época (cf. Gênesis 1.26,28).

[5] Criação: termo teológico para o que chamamos de “natureza”.

[6] Como ilustração, citamos alguns trechos de o Cântico do sol: “Louvados sejas, meu Senhor, pela irmã água, a qual é muito útil e humilde e preciosa e casta (…) Louvados sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra, que nos alimenta e governa e produz variados frutos e coloridas flores e ervas (…)” (Francisco de Assis apud Nigg 1975, p.30).

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