O que está por trás do debate sobre a crise ambiental

Priscila de Paula Varela

Levantamentos sobre a crise ambiental têm se tornado cada vez mais comuns não só no meio científico como em diversos setores da sociedade. Continuamente recebemos através da mídia notícias de estudos sobre os impactos ambientais causados pelo homem e prognósticos dos resultados de séculos de exploração da natureza. Mas o debate não é novo, há mais de quarenta anos os alertas ambientais começaram a ser difundidos pelo mundo, o que nos leva a nos questionarmos  por que somente nos últimos anos o assunto ganhou notoriedade e quais os interesses envolvidos no assunto.

No decorrer dos últimos séculos a crença no poder do homem sobre a natureza foi cada vez mais acentuada e valorizada. Com o advento das idéias renascentistas de humanismo, com o antropocentrismo e após o iluminismo, o conceito de homem como um ser racional, dotado de inteligência superior e acima dos animais se propagou consideravelmente, assim como a desvalorização da religião e de antigas crenças e mitos em detrimento da racionalidade. Isso propiciou o desenvolvimento da ciência, o que permitiu ao homem aprimorar amplamente suas capacidades físicas e intelectuais, entretanto, essa necessidade de distanciamento de tudo relacionado ao tradicional e ao natural gerou a desvalorização da noção de homem enquanto ser integrante da natureza e ele passou a se ver como um ente à parte dela. Os recursos naturais passaram a ser encarados como um meio para a satisfação de suas necessidades, como se sua função primordial fosse estar a serviço do homem, sendo então natural que ele se apropriasse de tudo em benefício próprio.

A ciência trouxe muitas vantagens para o homem e não podemos negar o quanto o desenvolvimento tecnológico nos propiciou em relação à melhoria das condições de saúde, de trabalho e da vida de um modo geral. O que ocorre, entretanto é que a supervalorização da ciência acabou de certa forma transferindo grande parte da antiga fé geral em crenças religiosas e míticas para o meio científico. Passamos a acreditar que a ciência é capaz de tudo, criar, dar respostas e resolver a qualquer coisa, só bastando para isso o tempo e estudo apropriados. O que muitos esquecem é que a ciência é feita por homens e, por isso, passível de falhas, crenças particulares, jogos políticos e interesses diversos e que, assim como qualquer outro  fator social está inserida em um contexto.

Ao pensarmos sobre isso percebemos então que a crença na ciência e a necessidade do desenvolvimento de novas tecnologias se ligam a muitas outras coisas além do atendimento das necessidades básicas humanas e da melhoria das condições de vida em sociedade, elas envolvem interesses políticos e financeiros.

 Com o desenvolvimento do capitalismo pudemos observar o crescimento exponencial do consumismo e a necessidade cada vez maior da criação e absorção de novas tecnologias. Esse desenvolvimentismo exacerbado tornou justificável qualquer ação do homem, mesmo as que prejudicassem o meio ambiente, até o ponto da naturalização do uso ao máximo dos recursos naturais para a obtenção de novos recursos tecnológicos.  Contudo,  há alguns anos a exploração desenfreada da natureza começou a mostrar seus resultados e a questão não pôde ser mais ignorada, estudos e análises passaram a ser feitos e os debates sobre o tema se tornaram mais freqüentes.  O que prejudica esse quadro é que, conforme mostrado no documentário “A Era da Estupidez” que mostra os questionamentos de um hipotético homem do ano 2055, único sobrevivente das catástrofes geradas pelo aquecimento global, a preocupação em relação os fatores de risco da ação humana sobre o meio ambiente sempre foi subjugada por outros interesses.

O homem tem como característica se preocupar com perigos imediatos, ele não consegue fazer uma relação apropriada entre suas ações e os resultados em um longo período de tempo. Por mais que há décadas o assunto venha sendo discutido ele sempre esteve suscetível a interesses políticos e financeiros, o que significa que se houve um aumento recente das discussões sobre o tema elas inevitavelmente estão influenciadas por esses mesmos valores.

Temos que nos perguntar até que ponto a discussão sobre a crise ambiental está realmente ligada a interesses ambientais e o quanto ela é influenciada por interesses particulares. E um exemplo disso é a exaltação que se tem feito sobre o desenvolvimento dos biocombustíveis, na crença de que através da ciência o homem conseguirá achar fontes alternativas de energia. A necessidade da diminuição da poluição e do uso de fontes de energia renováveis não está em questão aqui, o que precisamos considerar é se os biocombustíveis irão mesmo diminuir os impactos ambientais. Temos de nos conscientizar que com a crescente escassez de alimentos no planeta o uso de terras cultiváveis para a plantação de monoculturas como soja e cana-de-açúcar não trará realmente benefícios ao planeta como um todo, mas somente para alguns países e para as grandes corporações que detém o poder sobre as indústrias energéticas e que não querem perder seu status.

Disso tudo percebemos então que, conforme dito anteriormente a crença inabalável na ciência faz muitos acreditarem que ela é capaz de resolver qualquer problema, e isso inclui os problemas ambientais que enfrentamos. A sociedade se tornou altamente consumista e as pessoas são levadas a pensar que a vida pautada pelo consumo possui um sentido e é algo natural, e que os dados sobre futuras catástrofes naturais são exagerados ou vão ocorrer em um futuro que não as atingirá. O fato de uma minoria consumir o que seria suficiente para uma quantidade muito maior de pessoas é ignorado. Fala-se na criação de novas fontes de energia, mas os princípios causadores dos problemas ambientais são deixados de lado e as propostas apresentadas são pautadas por interesses particulares. Ninguém quer diminuir seu consumo ou utilizar os recursos naturais de forma sustentável, é mais fácil continuar no mesmo padrão de comportamento, com as desigualdades presentes e acreditando que a ciência resolverá tudo.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ARMSTRONG, Franny. A Era da Estupidez (Age of Stupid, The). [documentário]. Reino Unido, Movie Mobz, 2009, 100 min.

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano escrita em 1854 – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

ASSADOURIAN, E. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo. Estado do mundo: Transformando Culturas do consumismo à sustentabilidade. Washington: Worldwatch Institute, 2010.

LATOUR, Bruno. Abrindo a caixa – preta de Pandora. Ciência em Ação; como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp, 2000.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Uma outra verdade inconveniente: uma nova geografia política da energia numa perspectiva subalterna. IN: OLIVEIRA, Márcio Piñon, COELHO, Maria Célia Nunes e CORRÊA. 2005.

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