O Mundo Contemporâneo e a Crise Ambiental


Rafaela Sforcin Leonel

 

            Muito se discute a respeito das mudanças que ocorrem no planeta e suas conseqüências: o aumento da temperatura, os constantes desastres naturais, a extinção das espécies da fauna e da flora e tantos outros. Os ambientalistas buscam constantemente soluções cada vez mais complexas para se obter um equilíbrio entre o avanço do capitalismo e das tecnologias com a sustentação do meio ambiente no planeta em que vivemos.

            Desde a década de 70 a população vem tomando consciência de que enfrentaremos uma crise ambiental mundial. Não se trata de casos isolados, mas sim de um problema generalizado que põe em risco todo o ecossistema e os seres que nele vivem.

            A partir da segunda metade do século XVIII eclodiu a Revolução Industrial, que se caracterizou pela transição de um sistema agrário e artesanal para outro industrial, dominado por fábricas e máquinas, onde a inovação tecnológica tornou-se constante. Essa concepção ajudou na consolidação do sistema capitalista, que busca produção em larga escala e o acúmulo de riquezas, não importando os meios utilizados para chegar ao produto final. Com isso o ser humano explorou cada vez mais os recursos naturais, para o benefício próprio, sem pensar nas conseqüências que teriam que enfrentar futuramente.

            Com a Revolução Industrial, o modo de viver da população também se modificou. A mecanização da lavoura e do transporte marítimo, a regulamentação de horas de serviço e as modificações nas instalações sanitárias melhoraram a qualidade de vida. Como conseqüência dessa melhoria, houve uma queda na taxa de mortalidade, que não foi acompanhada pela taxa de natalidade, com isso houve um grande aumento demográfico, e o aumento da população mundial tornou-se quase uma linha vertical, tamanha a rapidez do processo, principalmente nos países em desenvolvimento.

            As reflexões de Erik Assadourian e do cacique de Seattle se fazem imprescindíveis para o entendimento do pensamento da sociedade capitalista do mundo moderno. Os dois discursos possuem fontes radicalmente distintas. De um lado um intelectual renomado e de outro um líder indígena, apontando, cada um a sua maneira, críticas tão ferrenhas quanto pertinentes a sociedade moderna.

            Para o cacique de Seattle, o “homem branco” desmistifica e desencanta a natureza, reduzindo-a em valor de troca. Segundo ele, “o ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém.”

Haveria, para o cacique de Seattle uma ruptura e uma “mercantilização” da relação do homem com a natureza. O “homem branco”, ao transformar o artefato sagrado para os indígenas em bem de consumo, reduz à valor troca todo um mundo dotado de sentido. Exatamente por isso o cacique consegue apontar uma característica marcante da sociedade capitalista moderna. Ao afirmar que o “homem branco” “não sente o ar que respira”, o líder indígena vem evidenciar uma relação particular que o homem tem com a natureza, de onde ele tira sua sobrevivência. A sociedade capitalista desencanta e desumaniza toda e qualquer tipo de relação. Para Weber, o que caracteriza a sociedade ocidental seria um processo de “desencantamento do mundo”, que “desmagificou” as formas de salvação e principalmente as relações do homem com o mundo. Em “A Ciência como vocação”, Weber mostra muito bem essa questão afirmando que:

Isto significa: o desencantamento do mundo. Ninguém mais precisa lançar mão de meios mágicos para coagir os espíritos ou suplicar-lhes, feito o selvagem, para quem tais forças existiam. Ao contrário, meios técnicos e cálculo se encarregam disso. Isto, antes de mais nada, significa a intelectualização propriamente dita (WEBER, 1972, p.49).

Essa lógica que movimenta a sociedade moderna, segundo Weber, transforma uma relação mistificada e encantada com a natureza em uma relação de cálculo racional e técnico. Nesse sentido que o “homem branco” compra e vende aquilo que seria sagrado, exatamente porque ele não “sente o ar que respira”, ou seja, não percebe o sentido do mundo indígena, uma vez que o sentido do mundo ocidental é o da racionalidade capitalista.

Erik Assadourian nos mostra que a relação do homem com a natureza é uma relação reificada, ou seja, mediada e fundamentada pelo lucro desenfreado. Assim, nota-se o aumento do consumo sem se observar suas conseqüências. A lógica do lucro e do consumo como melhoria de vida determina uma forma de ação sobre a natureza que prima, exclusivamente, pelo aumento da capacidade de compra dos indivíduos. Exatamente por isso que a relação dos homens entre si e com a natureza é reificada.

“A reificação configura-se como o processo pelo qual, nas sociedades industriais, o valor (do que quer que seja: pessoas, relações inter-humanas, objetos, instituições) vem apresentar-se à consciência dos homens como valor, sobretudo, econômico, valor de troca: tudo passa a contar, primariamente, como mercadoria. (…) O trabalho reificado não aparece por suas qualidades, trabalho concreto, mas como trabalho abstrato, trabalho para ser vendido. A sociedade que vive à custa desse mecanismo produz e reproduz, perpetua e apresenta relações sociais como relações entre coisas. O homem fica apagado, é mantido à sombra. Todo o tempo, fica prejudicada a consciência de que a relação entre mercadorias (e a relação entre cargos) é, antes de tudo, uma relação que prevalece sobre a relação entre pessoas” Fernando Braga da Costa

            Pode-se então concluir que existe uma convergência nos discursos do cacique de Seattle e de Erik Assadourian, visto que ambos apontam características fundamentais da sociedade moderna. Uma sociedade que se fundamenta em uma relação desencantada com o mundo e reificada entre as pessoas. É neste sentido que problemas como o excesso de consumo vêm ganhando patamares cada vez mais preocupantes no mundo moderno.

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