Desenvolvimento e Progresso: Para Onde?

Nathália Borges


A trajetória humana moderna é marcada pelos ideais do iluminismo, que tem por base a racionalidade cartesiana com seu imaginário a cerca do que é desenvolvimento e qual conceito de progresso carrega. Esse olhar enviesado nos traz, no bojo da cultura e da política que desse paradigma deriva, as consequências desse projeto de mundo. Os efeitos vão marcar de forma brutal seus signos em nossa constituição enquanto humanos, direcionando nosso pensar, agir e sentir e nossa forma de nos relacionarmos com a natureza e também com nós mesmos.

A cisão homem X natureza foi se consolidando por meio dos cientificismos, racionalismos, desenvolvimentismos e outros ismos nocivos que permeiam nosso cotidiano, em nome do progresso e da modernidade, interiorizando em nós uma visão acrítica e quase que naturalizada desse conjunto de ideias e ethos de vida, de modo que em nossas ações- ou a falta dela- não seja percebido como nos pautamos por esses ideais, inconscientemente ou não, que assim vão reforçando e mantendo essa estrutura construída em outros termos que, analisados bem, não se sustentam dada a realidade hoje vivida por nós e todo o mal estar e conseqüências irreversíveis geradas por esse modelo de mundo.

Ao aceitarmos o conceito abstrato de progresso por si só positivo – sem contar o caráter positivista mesmo que carrega- deixamos de lado questões estruturais e causais que o desenrolar desse ponto produz. Questões tais como: Progresso para quem? Para onde? A custa de que? Enfim… O que é progresso?

Esse projeto de sociedade vê o progresso numa linha continua evolutiva que abarca tudo e todos que trabalharem por isso, levando assim, os benefícios da civilização para toda e qualquer cultura, num processo de homogeneização do mundo em prol de um ideário falacioso que mascara os riscos e as perdas e em que pilares se sustenta esse sistema.

Essa lógica aliada ao padrão de consumo voraz que dita o ritmo nos dias de hoje e do lucro dependente da miséria e da desigualdade não permite que a humanidade se emancipe efetivamente com questões primárias como a da segurança alimentar, as questões de moradia e da água potável para todos.

Isso nos faz pensar em umas das perguntas centrais sobre o tema, que é: Progresso para quem? Mesmo com os padrões tecnológicos e científicos existentes e o tamanho acesso às informações e aos recursos disponíveis não conseguimos sanar questões básicas na base da pirâmide social por ser ela mesma a sustentação do conforto para o cume.

No processo civilizatório do mundo moderno produzimos um tipo de comportamento imediatista que nos desligou em muito de nossas raízes e nos tirou a noção de que somos parte da natureza a colocando sempre ao nosso serviço a qualquer custo. O individualismo produzido nessa lógica também ajuda a nos eximir de nossa responsabilidade para com as próximas gerações nos deslocando de um senso global da posição que ocupamos no mundo e qual nosso papel no coletivo social.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem a noite e extrai da terra aquilo que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa pra trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda.Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
(Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano)

Citando a famosa carta do Cacique de Seattle podemos observar como outros olhares coexistem mesmo com os esforços das diretrizes massificadoras. Outra relação com a natureza é possível tendo em vista outros objetivos para a vida humana.

A revolução industrial foi o ponto central de um processo de transformações produzidas pela intervenção do homem num período tão curto de tempo e numa escala de proporções que jamais fora sentido pela Terra, acelerando e modificando processos naturais mexendo, assim, com a diversidade, com os ciclos da natureza e colocando em risco a nossa própria existência. Estudiosos do tema no mundo todo apontam dados alarmantes em relação à uma futura escassez e esgotamento dos recursos, mas ainda vemos que nadamos contra a corrente quando tocamos no ponto chave dessa questão que é estrutural, quando saímos do conforto das zonas do discurso incabível desse suposto desenvolvimento sustentável quando esta mesma- a sustentabilidade- anula o eixo central do sistema do excesso a qual serve, provando que só uma mudança de paradigma seria capaz de uma transformação efetiva rumo a reversão dos danos causados a nós mesmo enquanto seres naturais e sociais.

 É necessário que se faça uma pausa nas máquinas do desenvolvimento, que já se encontram sem seus condutores de outrora, os idealizadores desse projeto de progresso iluminista hoje desvirtuado, desgovernado, para que se posso nortear com a pergunta derradeira: Progresso para onde? Onde vamos parar e a qual direção nos conduzimos? Nós, enquanto a maioria que pouco desfruta de seus frutos senão de forma marginal, desigual e alienada devemos nos desvencilhar da forma monolítica de pensar nossa relação com o planeta, fugindo do utilitarismo que permeia essa problemática e questionando de forma crítica quanto aos objetivos desse projeto de mundo vigente.

Bibliografia

ASSADOURIAN, Erik. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo – Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável.  Tradução: Claudia Strauch. Salvador, BA: Uma Ed., 2010

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: