A questão ambiental e os equívocos de entendimento


Luana Silva

            Dentre as especificidades da modernidade ocidental e globalizada, existe uma característica que merece destaque e que pode nos ajudar a entender os equívocos da questão ambiental na atualidade.

            A emergência da sociedade capitalista representou também a emergência da “razão” como ferramenta principal para conhecer o mundo. Essa razão esclarece, ilumina e desencanta o mundo.

A exaltação da razão promove a separação entre homem e natureza, e esta a partir de então passa a ser reconhecida apenas como fonte de extração de recursos naturais, uma ferramenta que deveria ser manipulada em função das necessidades dos homens ou mais precisamente do capital.

            Essa separação ou distanciamento entre homem e natureza figura como o maior equívoco produzido dentro da sociedade capitalista. A exaltação e valorização dos seres humanos em detrimento aos demais elementos presentes na natureza legitima dessa forma a postura assumida pelos seres humanos ao se utilizarem os recursos naturais do planeta de forma indiscriminada e predatória.

            Desta forma, “meio ambiente” passa a ser algo externo, algo do qual os seres humanos não fazem parte não se reconhecem enquanto participantes, e este estaria destinado apenas à exploração.

            A exaltação e valorização dos seres humanos corroboram para o surgimento de uma subjetividade, de uma cultura onde os indivíduos tentam de todas a maneiras satisfazer os seus desejos e necessidades particulares.

            O problema é que nem todos os seres humanos participam dessa lógica de consumo da mesma maneira, e essa é a perversidade desse sistema, pois este se afirma por meio da exploração não só dos recursos naturais mais por meio da exploração e exclusão de seres humanos por outros seres humanos.

            Então apenas uma pequena parcela de seres humanos pode ter acesso aos produtos desse sistema enquanto a maioria dos seres humanos é explorada ou simplesmente apartada de todo esse sistema de produção.

            Essa racionalidade na qual a lógica do sistema de produção capitalista se vê imerso produz por um lado a idéia de que a natureza é apenas fonte de extração de recursos e por outro que os  resultados da produção desse sistema se tornam indispensáveis aos seres humanos, ou seja os seres humanos nesse momento se orientam e se reconhecem pelo consumo de produtos e serviços produzidos a partir da lógica da exploração.

            Não só as grandes empresas que exploram os recursos naturais de maneira predatória estão explorando os recursos naturais, mas todos os seres humanos que no momento em que utilizam os produtos e serviços fornecidos também estão contribuindo para a degradação da natureza e por não se reconhecerem em quanto parte desta.

            Afinal de contas é o consumo dos mais variados produtos como computadores, celulares, carros, alimentos industrializados, casas, cirurgias estéticas, roupas de marca, produtos farmacêuticos etc. que impulsionam a exploração não só dos recursos naturais, mas também de seres humanos.

            A resolução das questões ambientais dessa forma deve ser pensada como resolução de problemas dos seres humanos.

            O “meio ambiente” não é algo fragmentado, pois enquanto natureza é reflexo das mais variadas formas de vida que nela existem incluindo a existência humana. Não existe meio ambiente dessa forma como algo externo aos seres humanos, pois os seres humanos também fazem parte da natureza.

            Dessa forma o equívoco no tratamento das questões ambientais está em considerar homem e natureza separadamente. Enquanto houver a exploração de seres humanos por outros seres humanos, enquanto o consumo for as forma de pertencimento, reconhecimento e distinção entre seres humanos a exploração dos recursos naturais para a obtenção de mais produtos terá a sua legitimação garantida no sistema capitalista.

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