A irracionalidade urbana


Caio Pauzer Guedes

 

O mundo vem observando há séculos um processo de urbanização desordenado e caótico, que vem prejudicando o meio-ambiente de maneira dramática e afetando a qualidade de vida das pessoas.

Como marco inicial nesse processo, pode-se entender o cercamento dos campos de uso comum dos camponeses europeus, ocorrido entre os séculos XVIII e XIX, que fez com que as populações que vivam nas áreas rurais migrassem para as cidades – fenômeno conhecido como a primeira onde expropriatória dos camponeses – e se tornassem os operários das fábricas que impulsionaram o capitalismo.

 Mas onde foram morar essas pessoas? Justamente esse é um ponto chave para se entender o problema: não houve planejamento urbano na maioria das cidades, essas pessoas se colocavam onde podiam, em lugares marginalizados pelos que ali já habitavam geralmente distantes dos centros, nas periferias e onde não havia estrutura para alocar pessoas.

Com a chamada revolução verde, que prezou pelos latifúndios mecanizados, com técnicas intensivas de produção, por volta dos anos 1960, houve a chamada segunda onda expropriatória, que dessa vez abrangeu também povos originários e populações negras, principalmente na América Latina, África e Ásia, fazendo aumentar ainda mais a população nas cidades.

Esse processo, que vem se acentuando nos últimos 40 anos, é conhecido como desruralização e Suburbanização, uma vez que as pessoas saem do campo e acabam vivendo em locais inapropriados, sem condições de criar suas famílias com o mínimo de dignidade.

Podemos citar o exemplo da região serrana do Rio de Janeiro, que recebeu trabalhadores de diversas partes do Brasil quando da construção das Usinas Nucleares de Angra e da estrada Rio-Santos. Depois da construção dessas obras grandiosas, que fizeram dinamizar a economia local, essas pessoas foram largadas à própria sorte, e a opção de habitação que tiveram para criar suas famílias foram os morros, já que as áreas de planície dessas cidades são ocupadas por grandes casas de luxo e estabelecimentos voltados ao turismo.

Foram justamente essas pessoas as mais prejudicadas na tragédia que ocorreu na região no início do ano de 2010 em razão de fortes chuvas. Houve deslizamentos de terras e muitas famílias perderam tudo o que tinham, além de entes queridos.

Como pensar na crise ambiental e não pensar que para solucioná-la, ou pelo menos abrandá-la, é necessário pensar em habitações decentes para essas pessoas, com infraestrutura básica – como saneamento, educação e atendimento médico? Se utilizarmos o espaço urbano de maneira mais eficiente, respeitando a terra, como diz o cacique Seatle em sua carta ao Presidente norte-americano, e entendendo que se essas pessoas tiverem moradia digna, não vão precisar desmatar áreas de preservação ambiental, devastar florestas nativas para construir suas habitações, ainda que precárias.

Vivemos num mundo onde a maioria das pessoas habita os espaços urbanos, saber otimizar seu uso é fundamental. Não podemos admitir a construção desordenada de nossas cidades, que acaba por devastar o resto de patrimônio verde que ainda temos. Saber respeitar a natureza entendendo que dela necessitamos para a nossa própria preservação, é crucial e deve começar nas escolas, com educação ambiental e, acima de tudo, educação para a cidadania. Apenas assim conseguiremos enfrentar a crise ambiental que vem se agravando a cada dia.

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