Capitalismo e Destruição

Fernanda Cristina Subires Garcia

 

            O caminhar da civilização que separa equivocadamente – e cada vez mais – o homem da natureza e a aceitação contínua do sistema-mundo Capitalista que visa, sem penar, o lucro cego e o acúmulo de riqueza mostra a todo o tempo o lado cruel de um sistema que tem como característica maior a exploração, a exploração do homem e a exploração infinita da natureza, resultando na desarmonia natural. Apesar de toda a discussão acerca do real resultado, ou não, da sustentabilidade, é necessário mais do que isso, enxergar que as formas de relação no mundo precisam ser recriadas, para que o homem permaneça no planeta terra com condições de vida digna. As implicações dos danos à natureza só faz crer que precisamos combater esse modo de vida equivocado que brinda a miséria e a degradação social e ambiental.

            Até então, a humanidade nunca tinha se deparado com a perspectiva de seu próprio extermínio. Essa dissociação entre homem e natureza faz com que o ser humano acredite que tudo está no mundo para lhe servir. O filme a Era da estupidez chama governantes e cidadãos para a fatalidade do aquecimento global e a necessidade de agir a favor do planeta para a manutenção da vida humana. A questão central do filme está em: “Por que não salvamos a nós mesmos quando tivemos a chance?” Num mix de realidade, ficção e documentário os personagens vão mostrando a falta de humanidade existente com os próprios humanos e com o mundo em um sistema feito por pessoas extremamente egoístas.

Uma cena, aparentemente trivial e de pouca importância, choca quando mostra Piers Guy, um engenheiro britânico, que monta uma turbina eólica no quintal de casa para cortar as próprias emissões, mas não consegue montar uma pequena usina eólica em sua região por oposição dos vizinhos, que ficam com medo de “estragar a paisagem”! Como lidar com isso? Como resolver um problema de proporção universal com pessoas que não estão se importando? Que não enxergam a real dimensão da destruição.

            Eduardo Galeano vai dizer no documentário O Veneno está na mesa (que trata dos danos causados pelos agrotóxicos) que a história da América Latina é uma história de usurpação, de perda dos recursos naturais e que a velocidade da destruição é muito maior que a velocidade da preocupação com o meio ambiente. Que essa ideia de progresso humano que se resume no economicista só traz malefício ao homem e à natureza. Que a terra e o homem são mais importantes que os números da produtividade (ou ao menos deveriam ser).

            A Ascensão e queda das culturas de consumo de Erik Assadourian vai trazer os números assustadoramente crescentes do consumo no planeta e as conseqüências disso para a saúde do planeta, visto que, com o aumento do consumo, aumenta-se a necessidade de combustíveis, minerais e metais, mais árvores são derrubadas, mais terra é usada para o plantio “Hoje, o europeu médio usa 43 quilos de recursos diariamente, e o americano médio, 88 quilos. No final das contas, o mundo extrai o equivalente a 112 edifícios Empire State da Terra a cada dia” (Assadourian, 2010). O texto vai trabalhar também a questão “natural” que ganhou o consumismo, o qual as pessoas se esquecem que é uma invenção cultural. E como o valor do consumo altera até mesmo o caráter das pessoas que acreditam que a riqueza material é sinônimo de uma vida digna.

            Assadourian vai trabalhar também a questão da educação, visto que somos submetidos a uma educação da classe dominante, classe essa que não está interessada na manutenção do meio ambiente, pouco se fala das técnicas de marketing na venda dos produtos, na questão do homem depender da natureza, em justiça social e ambiental, em modelo de alimentação saudável e sustentável. Hector Ricardo Reis em A Modernidade Insustentável vai lembrar também da importância da educação e de enxergar a crise ambiental por um viés, também, político.

            Assadourian vai lembrar também a reação dessa imposição do modo de produção capitalista que será o surgimento de movimentos sociais para tratar a questão da sustentabilidade. Essas diversas associações trabalham a possibilidade de culturas altamente sustentáveis e o combate dessa forma consumista de encarar o mundo. E a possibilidade de interiorizar a questão da sustentabilidade nas pessoas. A monocultura calcada na lógica mercantil é uma afronta à cultura, é a negação de todo um legado histórico, legado esse que deve ser retomado para alimentar bem a todos e preservar o ecossistema. A modernidade com esse modo de produção traz consigo mais do que a destruição do planeta, traz a morte de pessoas, a exploração em suas diversas formas.

            Um texto de domínio público distribuído pela ONU deixa claro a emergência de se fazer algo pelo ambiente, a carta do Cacique Seattle ao presidente norte-americano demonstra como a natureza é de fundamental importância para seu povo, a natureza é adorada. Faz com que se pense na dinâmica da nossa relação com o ambiente e com os outros povos, que se pense na alteridade, e no quanto o outro tem para ensinar à nossa sociedade, sociedade essa que julga detentora do conhecimento e apta para levar “as luzes” aos “ignorantes”, mas, que na verdade, só adota um meio nefasto de se relacionar com a natureza.

            O cacique Seattle mostra o quanto o humano faz parte de toda a natureza e o quanto depende dela. Ele chama a atenção do “homem branco” e no quanto não percebemos os costumes deles. Existe uma relação com o vídeo A Era da Estupidez, todas as críticas quanto a não nos importarmos com a natureza, com nossos antepassados e com nossas gerações futuras estão na carta também. O cacique critica o modo de vida na cidade, onde distancia cada vez mais o homem da natureza e lembra que existe uma ligação em tudo do homem com a natureza, ele, diferente de nós, entende a dinâmica e os limites do ecossistema.

            Os fatos são bem deprimentes e assustadores, todos devem se chocar e comprar essa briga contra a tragédia do sistema capitalista e suas conseqüências sociais e ambientais. Eduardo Galeano, ainda no vídeo O Veneno está na mesa, nos alerta para que não deixarmos mais o mercado controlar a dinâmica social, visto que ele manda esquecer a identidade entre recursos naturais e a vida humana.  O cacique Seattle já nos alerta para o fim da vida e o começo da sobrevivência, mas nesse sistema isso já acontece, a maioria sobrevive, não tem uma vida plena, mesmo sabendo que isso seria possível para todos. A luta é a favor da vida, sem parecer pedante, um modo de produção que aceita e necessita da pobreza, da destruição do homem, da fome, da exploração infinita da natureza não pode continuar ditando as regras.

 

Bibliografia

 

ASSADOURIAN, Erik. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo – Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável.  Tradução: Claudia Strauch. Salvador, BA: Uma Ed., 2010

LEIS, Héctor Ricardo. A modernidade insustentável: as críticas do ambientalismo à sociedade contemporânea. Santa Catarina: Ed. UFSC, 1999.

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

Vídeo: A era da estupidez. Franny Armstrong, 2009.

Vídeo: O veneno está na mesa. Silvio Trendler, 2011.

 

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