O Capitalismo Fordista no mundo contemporâneo: espólios de um século consumista


Fausto Ancona[1]

Finito. A historia do homem contemporâneo, desde sua evolução até os dias de hoje, se acirrou e se desenvolveu sem o uso da palavra Finito. Desde seus primórdios, o homem pensava que os recursos que utilizava estariam disponíveis indefinidamente, ignorando o fato que, segundo o Cacique Seattle, “a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra”. Mesmo com a evolução da racionalidade e do pensamento humano, a bandeira do desenvolvimentismo da sociedade (des)organizada denominada humanidade sempre priorizou o bem estar de seus indivíduos, em detrimento de tudo que os cercava. É interessante notar que grandes avanços tecnológicos sempre tiveram por contrapartida grandes desgastes ambientais. E essa constante avançou por todos os marcos conhecidos da historia das sociedades, tendo seus ápices em grandes transformações tecnológicas sociais, como as Revoluções Industriais Inglesas. De todas as revoluções, as industriais possuem uma característica diferenciada: elas se reinventaram com o passar dos séculos e acharam na égide do capitalismo seu modo perfeito de implementação em uma sociedade global cada vez mais urbanizada.

 Na verdade, o capitalismo doentio e explorador de hoje só foi possível pelo amplo avanço tecnológico. As Revoluções que deram origem ao capitalismo fossilista, ou seja, aquele que depende amplamente de recursos orgânicos finitos na natureza, como o carvão fóssil e o combustível, se reinventaram na medida em que o homem evoluía com uma técnica proporcional a sua ganância. Na verdade, é de uma generalização grosseira elencar “o homem” – entidade representativa da espécie humana – como criador de um maquinário científico e político que praticou uma exploração descabida de recursos essenciais nos últimos três séculos. Os grandes responsáveis por toda essa utilização desnecessária de elementos restritos na natureza são os mesmos indivíduos que reinventam a revolução industrial pautada no acúmulo de riqueza, no desenvolvimento em prol do enriquecimento de pequenos grupos organizados. Com o avanço do século XX e a financeirização crescente dos meios de produção, de entidades privadas e estatais e até mesmo da qualidade de vida, o capitalismo fossilista se renova para atender a principal mazela criada pela produção industrial: o consumo em massa.

A sociedade ocidental que adentra os anos 1900 é basicamente pautada pelo consumismo. A base da felicidade, a base de se construir políticas sólidas, se se constituir poder, eram todas pautadas em quanto se possuía. O materialismo avassalador que dominava principalmente as médias e altas elites daquele tempo foi um dos fatores cruciais que impulsionaram a reestruturação no modelo econômico que se aplicava anteriormente. Essa procura incansável levou aos industriais basearem suas produções na lei da oferta e da procura. Assim, o famigerado capitalismo fossilista “evoluiu” para o capitalismo fossilista fordista. O Fordismo – fruto do industrial produtor de carros Henry Ford – nada mais era que institucionalizar a linha de produção como meio expresso de se conseguir lucro e alimentar a turba faminta por carros, eletrônicos e todos os tipos de bens de consumo produzidos em larga escala. Toda essa dinamização do consumo, exacerbado, sem limites, foi promovida não só pelos industriais, mas também pelas potencias que no decorrer dos anos se tornaram mais ou menos poderosas, mas que deixaram um legado extremamente problemático para as gerações que viriam posteriormente.

Ao chegarmos em pleno século XXI, a pauta ambiental acabou gradualmente ganhando uma força maior devido ao fato de cada vez mais ser notável a falta de recursos naturais utilizados em larga escala. Entretanto, o modo como a sociedade continua se desenvolvendo continua empacado, como um farol de Alexandria iluminando o passado. A sociedade de consumo ocidental agora é uma sociedade de consumo global. A globalização, a era da informação e o gigantesco salto qualitativo e quantitativo da produção de bens de consumo – principalmente no “recém nascido” setor de informática – acabaram por acelerar ainda mais o crescimento dessa população consumista, que já não se distingue mais em nicho econômico e social algum. O que há hoje é apenas um grande abismo separando quem tem o poder de comprar e quem não tem o que comer. A grande mazela dessa nova era contemporânea é repetir – ou melhor, não corrigir – os erros ambientais causados no século passado, que se perdeu exatamente por acabar com uma longevidade da civilização humana sob a bandeira de um desenvolvimento pífio, no qual a longo prazo se demonstrará mais prejudicial do que vantajoso.

O espólio deixado pelo capitalismo fordista, que é fruto do capitalismo fossilista e que por sua vez encontrou suas bases nas revoluções industriais inglesas nada mais é que uma sociedade autodestrutiva e incapacitada em se reorganizar e se reeducar. Por mais que a agenda ambiental esteja agora muito mais presente do que há poucas décadas atrás, ainda assim falta incentivo da própria sociedade em querer mudar. Não só a propaganda colabora para acirrar ainda mais o consumismo desenfreado, mas também há uma resistência do próprio individuo em não conquistar para si o “sonho (norte) americano”. Cada vez mais o ambiente a nossa volta vem sendo degradado, a qualidade de vida despenca para mais de 80% da população global e o mundo, paulatinamente, vai se transformando em um lugar cada vez menos propício para a manutenção da vida humana. Necessita-se urgentemente de uma revolução novamente, sobretudo no modo de pensar da sociedade de hoje. Apenas com uma mudança bruta na forma de consumir, de gastar e de conter a exploração ambiental deturpada e exacerbada é que será possível prever um futuro para as gerações que estão pra nascer em nosso tempo. O triste é pensar que tudo isso porque o que era Finito e não se sabia, lentamente vem encontrando seu fim.


[1] Fausto Tadeu Ancona é aluno de graduação do 3º ano do curso de Relações Internacionais da UNESP Marília – Faculdade de Filosofia e Ciências. Essa reflexão é parte das avaliações da disciplina de Tópicos em Geografia, ministrada pela Prof. Dra. Mirian C. Lourenção Simonetti.

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