Uma Questão de Evolução

Raphael Fassoni de Freitas

 

Temos observado que, no decorrer da História do mundo contemporâneo, todo e cada século tem sido marcado por alguns poucos acontecimentos (quase sempre trazendo perdas para muitos e benefícios para poucos) capazes de envolver (direta ou indiretamente, intencional ou acidentalmente) toda a raça humana. Estes eventos foram responsáveis por alterar profundamente o modo como as pessoas viviam. De início, a adaptação à nova realidade era em parte opcional e, os que tomaram a frente, puderam evitar o sofrimento, desfrutando de posição privilegiada, ou simplesmente garantindo sua sobrevivência. Conforme as alterações iam se consolidando e abrangendo um número maior de pessoas, a adequação (e não a adesão ou aceitação) tornou-se praticamente obrigatória pois, os que resistiam à nova dinâmica, via de regra eram por ela engolidos. Por exemplo, no século XVIII, tivemos o início das guerras de independência e a Revolução Francesa (que, inclusive, marca a transição da idade moderna para a contemporânea); no XIX, as guerras napoleônicas e a Segunda Revolução Industrial (na qual tivemos como protagonistas o petróleo e a eletricidade) e, no século passado, a ocorrência de um número maior destes eventos “globais”, como as duas guerras mundiais, a Terceira Revolução Industrial, a consolidação do processo de globalização, o surgimento da Internet, dentre outros. Contudo, o ponto que se destaca e exige de nós maior atenção refere-se ao processo de extração e da utilização (cada vez mais ampla) dos combustíveis fósseis a partir do século XVIII. As consequências deste uso indiscriminado começam a surgir, e quando somada a outras atitudes irracionais, permitem que identifiquemos o evento global que marcará o século XXI (mesmo que passados somente 11 anos de seu início): a crise ambiental, marcada pela luta (contra o tempo, nós mesmos, os governos corruptos, as empresas gananciosas, a mídia manipuladora, as sociedades com valores corrompidos, dentre outros muitos) para reverter todos os danos causados ao meio ambiente durante todos esses anos.
É, ainda, fato consumado que apesar de termos que combater diversos e poderosos “inimigos”, forjados e fortalecidos ao longo do tempo, contamos com importantes ferramentas (armas) para tal. Na verdade, observa-se a demonstração de tamanha ignorância ao adotarem (principalmente governos, corporações e ecocéticos dos países desenvolvidos) esta dicotomia. Isto porque dependem ainda mais dos recursos naturais que a população em geral (pois, aparentemente, não conseguem conciliar a sustentabilidade ao padrão de vida atingido) e serão tão (ou mais) afetados do que as classes mais baixas caso as mudanças climáticas não sejam revertidas. Quanto às ferramentas que dispomos, por exemplo, sabemos quais são as principais causas da crise ambiental – e, portanto, o que pode e deve ser feito nas diversas escalas de atuação para reverter este quadro degenerativo; o avanço da ciência nos permite saber também quais os níveis atuais de degradação do planeta, o que possibilita o planejamento e a coordenação das ações de modo a torná-las mais efetivas; e sabemos até mesmo por onde começar, no sentido de alterar (redirecionar) os paradigmas culturais, reduzindo a influência que a mídia, a economia, a política possui sobre o modo de vida – baseado no consumo – e adequando-os aos padrões sustentáveis. Assadourian (2010) nos fornece metas simples e aplicáveis universalmente para atingirmos tal objetivo: a) desestimular o consumo excessivo e supérfluo; b) substituir o consumo privado pelo publico (por exemplo, menos carros e mais ônibus); e c) aumentar a duração dos bens de primeira necessidade.
Mark Lynas (em entrevista dada ao documentário “A Era da Estupidez”), expõe uma importante constatação, da qual compartilho. Esta refere-se a um dos maiores problemas advindos da mudança climática, que seria a percepção dos efeitos das emissões dos chamados gases estufa somente a longo prazo (em termos do aumento da temperatura do planeta). Isto significa que um lapso de tempo de 30 a 40 anos dificulta nossas reações, e ainda mais o processo de conscientização, pois exige de nós algo que não somos “evolucionariamente programados” a fazer, sendo que estamos acostumados, majoritariamente, a agir contra ameaças diretas e a mudar hábitos que nos afetam no curto prazo.
Apesar deste “estágio inalcançado” da evolução humana, acredito ser possível a obtenção resultados satisfatórios e duradouros caso consigamos agregar estas metas ao supracitado redirecionamento dos paradigmas culturais, focando principalmente na educação (que possibilitará o discernimento sobre quais valores, normas e comportamentos sao sustentáveis e, portanto, que devem ser adotados), governo (estimular o desenvolvimento ambientalmente correto, ao invés dos incentivos ao consumo vistos atualmente) e mídia (que verá sua influencia sobre o modo de vida diminuído a partir da difusão do conhecimento sobre seu real papel em contraponto às reais necessidades dos seres humanos). Ou seja, o que hoje refere-se a esforços em prol do meio ambiente, no futuro passará a ser natural, e portanto cultural. Salvar o planeta é possível, basta querermos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ASSADOURIAN, Erik. Ascensão e Queda das Culturas de Consumo – Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentável / Worldwatch Institute; Introdução: Muhammad Yunus. Organização: Erik Assadourian; tradução: Claudia Strauch. Salvador, BA: Uma Ed., 2010. 298 págs. 1ª edição.

ARMSTRONG, Franny. A Era da Estupidez. Reino Unido: Dog Woof Pictures, cop. 2009 (89 minutos).

Carta do Cacique Seattle ao Presidente Norte-americano – Texto de domínio público distribuído pela ONU.

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