O mundo contemporâneo e a crise ambiental: um ciclo sem fim?

Mariana Helena da Silva Gaspari

O final da Guerra Fria trouxe uma série de consequências, entre elas a ascensão dos Estados Unidos como única superpotência hegemônica. Atualmente, com a mundialização da economia não existem praticamente mais barreiras entre os países, as pessoas circulam ao redor do mundo com certa facilidade, o intercâmbio e a interação cultural são inevitáveis. O mundo hoje é marcado pela competição dos mercados e pelo domínio do sistema capitalista de produção. Assim, no lugar da integração geoeconômica se estabeleceu um gap ainda maior entre os países, e as transformações nos padrões de vida da sociedade são indiscutíveis.

Entre essas transformações podem-se destacar as mudanças de valores, e a formação de “comunidades de consumo[1]” as quais partilham o mesmo sócio-estilo. Os Estados Unidos lideram essas transformações influenciando o mundo com o sonho do “american way of life” onde o consumismo é a palavra chave. De acordo com Assadourian[2] (2010), com o passar dos séculos o consumismo passou a ser parte intrínseca das culturas, e a conseqüência desse fato é a maior exploração de recursos naturais e não renováveis. Pode-se notar que com a transformação nas sociedades, aumentou-se o consumo e a exploração de combustíveis, de minerais e metais extraídos da terra, bem como apresentou-se um crescimento na taxa de desmatamento tanto para utilização das madeiras das árvores, cultivo de alimentos e também para a criação de animais para abate.

            Os valores já não são mais os mesmos, o cuidado com a terra e o respeito com a natureza, descritos na carta[3] do cacique Seattle estão extintos. O número de carros nas ruas aumenta a cada ano, bem como os níveis de emissão de gases tóxicos. Aumenta-se o número de eletrodomésticos nas casas. Agravam-se os problemas sociais como a desigualdade e a obesidade. A gigantesca oferta de produtos e serviços aliada à vontade das pessoas de cada vez mais possuir “do bom e do melhor” é a receita para um grande desastre ambiental. Segundo dados levantados por Assadourian (2010) 32% dos dispêndios globais são feitos apenas por 5% da população, ainda segundo o autor, os EUA são atualmente responsáveis por grande parte desse consumo, sendo que se todos vivessem como a sociedade norte-americana a terra teria poder de sustentar apenas 1.4 bilhão de pessoas. Nesse contexto, pode-se destacar o papel da indústria do lobby, da internet e das mídias em geral, que estrategicamente induzem e aceleram o processo do consumismo.

Outro aspecto relevante é a tendência que as outras sociedades adquiriram de seguir o “american way of life”, como a China, um país com 1.3 bilhão de habitantes (e consumidores). O país asiático atualmente é considerado peça chave dentro do cenário internacional, uma vez que de acordo com Paulino e Pires[4] (2011) a China atualmente não é apenas a “fábrica do mundo”, mas também é o mercado que mais cresce. De acordo com as estatísticas[5], em 2020 a China ultrapassará os EUA se tornando o país com maior PIB mundial, e também será o país que mais consome no mundo.

Outro ponto crítico que demonstra o papel da China dentro dessa sociedade de consumo, diz respeito à compra de terras (principalmente no Brasil e na África) que os chineses vêm realizando nos últimos anos. A China é o terceiro maior sócio do continente africano, e carece de muita matéria prima a fim de que consiga dar sustentação ao seu virtuoso crescimento econômica, e, nesse sentido, ela se beneficia da abundância de recursos naturais africanos.

Sabe-se que a matriz energética dos chineses ainda é em grande parte baseada no carvão, que é altamente nocivo ao meio ambiente. As grandes cidades chinesas possuem uma qualidade de ar inferior do que a mínima recomendada, as pessoas usam máscaras nas ruas, tem problemas de respiração, e o céu azul é algo raro, o que se vê são apenas nuvens acinzentadas que juntamente com os arranha-céus formam as ilhas de calor.

As Olimpíadas de Beijing em 2008 trouxeram uma esperança no sentido de tentar reverter essa situação. O governo tomou uma série de medidas, como por exemplo, remover sacolas plásticas dos supermercados, aplicação de multas para quem sujasse as ruas, e o estabelecimento de cotas de emissão de tóxicos para as indústrias. Tudo parecia caminhar para a solução de muitos problemas ambientais da China, porém com o fim das Olimpíadas, grande parte dessas medidas foi cancelada, e as grandes cidades chinesas voltaram a ser como antes, talvez até pior.

O fato é que estamos diante de uma transição. Os dados anteriormente citados nos levam a crer que a China tomará o posto dos EUA dentro de um breve período, seu crescimento contínuo demandará cada vez mais a exploração de recursos e matérias primas. O poder aquisitivo dos chineses também crescerá o que acarretará numa maior procura por produtos de luxo. O cenário é o mesmo nos países desenvolvidos, a tendência de querer sempre mais é vista como parte da cultura dessas sociedades. Alguns consomem mais, outros vivem na miséria e não possuem o mínimo para a sobrevivência. Os termômetros nunca registraram temperaturas tão quentes, as catástrofes naturais furacões e tsunamis nunca foram tão freqüentes. O meio ambiente nunca foi tão desrespeitado, e pede socorro através de fenômenos, chamados por nós de “catástrofes naturais”, que de “naturais” não possuem nada, uma vez que são conseqüências de nossos próprios atos.

O que então será necessário para percebermos que já estamos vivendo uma crise ambiental? Será que todos assistirão a essa destruição de mãos atadas? Assadourian (2010) afirma que a solução para esse problema seria uma transformação generalizada nos padrões culturais dominantes. O autor é extremante otimista ao defender que já existem iniciativas de vários países no intuito de trazer uma nova cultura voltada para sustentabilidade. A solução ideal para salvar o planeta, seria uma aliança entre essa transformação generalizada nos padrões culturais e o surgimento e aplicação de novas tecnologias.

No entanto, afirma-se aqui que consumismo exacerbado afeta as grandes potências, foi o que aconteceu com os EUA no pós-guerra fria, é o que está acontecendo com a China, e possivelmente ocorrerá com outros países num futuro mais distante.  O consumismo pode ser visto como uma herança de família, ele passa de geração para geração. Infelizmente, as conseqüências dessa exploração sem precedentes vêm se agravando com o passar dos anos e com o descaso dos seres humanos. É um ciclo que provavelmente só terá fim, quando não houver mais o que explorar. É uma história que se repete, e que não terá um final feliz.


[1] Conceito utilizado em: MATTELART, A. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.

[2]ASSADOURIAN, E. Estado do mundo: Transformando Culturas do consumismo à sustentabilidade. Washington: Worldwatch Institute, 2010.

[3]  Carta do cacique Seattle ao Presidente norte-americano no ano de 1984, quando o presidente dos EUA fez à tribo indígena uma proposta de comprar grande parte de suas terras.

[4] PAULINO, L. A.; PIRES, M. C. Negócios na China. IEEI, [2011]. No prelo.

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