Capitalismo e ‘crise’ ambiental: novos intelectuais, movimentos sociais e lutas contemporâneas

Jonas Rangel de Almeida

Nosso objetivo neste trabalho é explorar de modo demasiadamente rápido algumas questões que existe em torno dos problemas da suposta crise ambiental, visando assim contribuir as discussões realizadas no âmbito da disciplina, Tópicos de Geografia. Um tema ardiloso para explorar, e que o faremos através das contribuições de Michel Foucault, e do geógrafo Carlos Walter Porto Gonçalves. Ademais, é preciso frisar que o que se segue não é um artigo acadêmico em sentido stricto sensu já que tal não tem a preocupação de demonstrar os pontos que se apresentam, mas apontar algumas hipóteses para problemas que sem dúvida permearam todo o debate político-epistemológico travado nas Ciências Humanas, e em particular na Geografia.

Crise. Talvez esta palavra tão proliferada pelos discursos da sustentabilidade não seja a melhor forma de expressarmos o real problema que existe em torno da questão ambiental, uma vez que, a crise não é um fenômeno intrínseco à natureza, mas, caracteriza os mecanismos de ampliação e reprodução do capital. Neste sentido,  a crise pode ser considerada como crise de reprodução do capital e não ambiental, já que, se encontra em estado critico são os próprios meios de exploração (a natureza) da sociedade de consumo. Pois, sabemos que o capitalismo, presente, até nas relações mais capilares da sociedade ocidental se mantém como modo de produção da vida humana a partir da exploração do trabalho humano e dos recursos naturais, sendo, ao mesmo tempo a sujeição da natureza interna (da subjetividade), e da natureza externa.

Ainda, costuma-se dizer que o capitalismo durante seu ‘desenvolvimento’ sofreu três crises gerais: a primeira  entre 1873-1893,  com a emergência do imperialismo, das guerras pelas colônias,  que levou o surgimento do capital financeiro – fusão do capital bancário e capital industrial (Lênin) ; a segunda entre 1929-1941, marcada pela  queda da bolsa de Nova Iorque em 1929, pela segunda guerra mundial, e a intervenção dos Estados na salvação dos capitalistas; e, a terceira a partir de 1971, aqui poderíamos dizer que se tem uma reestruturação produtiva do capital, entendida como crise dos meios energéticos que motorizam a sociedade como um todo. Gostaríamos de nos concentrar nesta última, pois, é daqui que emerge os debates sobre a crise ambiental. Dessa perspectiva, pode-se inferir que o movimento do entorno da crise ambiental nada  mais significa do que um conjunto de estratégias de recolonização do mundo pelo capitalismo, através da idéia de modelo sustentável de desenvolvimento. Ora,  a própria palavra ‘desenvolvimento’, também deve ser retirada de sua quase evidência, pois, desenvolver neste caso implica em adotar o modelo industrial de sociedade.

Elaborado a partir da década de 1970 a idéia de desenvolvimento sustentável,  apela para o agravamento dos problemas ambientais, para responsabilidade dos paises em criar novas tecnologias que degradem menos o meio ambiente, para  a busca de novos tipos de combustíveis. Da mesma forma este movimento investe na criação de sanções para penalizar os paises poluidores, contando com dezenas de congressos, documentos, Ong’s, sendo os principais encontros organizados pelas nações unidas: a conferencia em Estocolmo (1972) e o encontro no Rio de Janeiro (1992), conhecido também como Eco 92; entre os documentos também poderíamos citar Nosso Futuro comum  e Agenda 21. Ainda que estas deliberações procurem mostrar os efeitos catastróficos da maquinaria capitalista à saúde do planeta, pode-se dizer também, que ao defender a continuidade do modelo industrialista esta ordem procura manter o status quo do sistema contraditório.

Carlos Walter Porto Gonçalves (1996), considera que a modernidade está fincada desde seus ideais mais caros, como liberdade e igualdade, na separação entre o homem e a natureza, na dominação da natureza como garantia da realização da liberdade desse Homem, na exclusão de todas as formas de saberes qualificados como não científicos. Segundo este autor, a idéia de dominação da natureza é em si mesma uma profecia que não se pode cumprir na própria medida em que dominar é fazer com que alguém ou qualquer outro ser faça não aquilo que quer, mas aquilo que outrem quer que faça. Assim, sejam os povos, etnias, classes, gêneros ou a natureza na medida em que são dominados implica que estejam sendo submetidos não ao que são, mas aquilo que querem que sejam. No mundo contemporâneo em que a ciência e seu subproduto a tecnologia são instrumentos da busca do aumento da produtividade tendo em vista a acumulação de capital, se produz um deslocamento da promessa iluminista de que a razão deveria substituir a religião em nome da emancipação humana. Deste modo, o paradigma científico de matriz eurocêntrica está fundado num mito que está a serviço da acumulação de capital que é o contexto em que vem se desenvolvendo cada vez mais.

A partir da década de setenta podemos ver emergir uma nova corporação de poder, segundo Gonçalves (2007), um complexo industrial-financeiro-midiático-militar, nova forma complexa da burguesia, característica de um capitalismo que passa a sofrer com a crise de matriz energética. Ainda, conforme este autor, acontece a união do capital agrário com o industrial, do o capital financeiro, com o capital das grandes empresas de mídia e com o mundo técnico-científico e sua organização em rede. Ocorre uma recolonização no âmbito das lutas ambientais, por isso, é até mesmo  possível ver grandes corporações capitalistas sustentando o discurso da nova forma de desenvolvimento, da sustentabilidade.

   Pode-se perguntar então, como se dariam a lutas contemporâneas genuínas? Qual seria o papel dos intelectuais (professores, administradores, cientistas) diante das lutas sociais históricas? Com que critérios poderíamos analisar os movimentos autênticos, de luta politica contra o moderno-sistema -mundo? Na opinião do filosofo francês Michel Foucault (2008), para entendermos a natureza das lutas contemporâneas é necessário um olhar mais atento à analítica das relações de poder, abandonando a noção de poder como repressão e interdição, ou ideologia[1] como falsa consciência. Para este autor, o poder (entendido como um conjunto de técnicas e estratégias que governam a subjetividade) produz objetos reais. A característica de nossa época seria de fim dos intelectuais que durante muito tempo se colocaram como porta-vozes e profetas da população, e a emergência de intelectuais específicos, isto é, aquele que competente em sua área (o professor, o cientista, o advogado, o sociólogo, etc) se utiliza deste saber para denunciar as excrescências do poder. As lutas seriam descontinuas, são focos de resistência, que reivindicam  e se apropriam  de novos espaços.

 Formas de resistência estas que permitem que seja observado de forma mais empírica a produtividade do poder e a economia das relações de poder. Segundo Foucault (1995) as lutas contemporâneas são caracterizadas por serem: a) transversais, isto é, não se limitam a um país; b) seu objetivo é o efeito que a relação de poder que produz; c) são lutas anárquicas, pois, não toma um inimigo permanente, mas, um adversário imediato; d) são batalhas pelo governo da individualização; e) lutas que questionam o regime de saber; f) por fim, são lutas pela subjetividade, quer dizer, diretamente vinculadas a quem somos nós. Aquilo que nos assujeita, que transforma os seres humanos em sujeitos. A luz destas idéias expressa pelo filosofo francês, podemos, recolocar no plano da luta pela constituição de um novo regime de verdade, lutas como: os direitos civis da década de 1960; os movimentos pela libertação dos povos oprimidos, ou, a lutas contra colonização; a luta contra a dominação de gênero; lutas  contra o poder que se exercem sobre os loucos; luta por melhores condições de existência; contra o modelo de encarceramento prisional; lutas em torno da ocupação dos espaços em nossa sociedade.

            Neste sentido, as lutas travadas por determinadas comunidades humanas, a saber, lutas de resistência ao terem suas habitações destruídas pelos grandes empresas capitalistas, desde, a luta por poder cultivar sementes crioulas, sem a autorização da Syngenta ou da Monsanto, até, a preservação de um rio que alimenta inúmeras populações ao longo de sua região. Como salienta Gonçalves (2007), o que está em curso é o processo de expropriação dos campesinatos e dos povos originários não só dos seus recursos naturais mas, principalmente, dos seus conhecimentos, o que implica, mais uma vez, na  desterritorialização, agora por meio do des-locamento do lócus de produção de conhecimento da relação direta com a natureza para uma relação mediatizada pelos laboratórios, cada vez mais empresariais. Enfim, retirar do lugar, ou melhor, retirar dos homens e das mulheres do lugar o poder de se reproduzirem por meio de seus próprios conhecimentos. E se atentarmos para nível das relações de poder, como entende Foucault, para as lutas pelo governo da própria subjetividade, para as lutas contra a produção dos regimes de verdade, podemos entender que estes acontecimentos exigem de nós uma atitude ética diante destas dominações, dessas expropriações, em suma de um comprometimento com a transformação do real, e horror perante o existente.

REFERENCIAS:

GONÇALVES, C.W.P. Os (Des)caminhos do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 1996.

______. Outra Verdade Inconveniente – a nova geografia politica da energia numa perspectiva subalterna. (disponível em www.mda.gov.br/…/Uma_Outra_Verdade_Inconvenient). 2007

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2008.

______. O sujeito e o poder. In RABINOW, P.: DREYFUS, H. 1995. Michel Foucault. Uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.


[1] Em Verdade e Poder (1977), Foucault, aponta três fatores problemáticos para a atualidade do uso da noção de ideologia: a) “queira-se ou não, ela está sempre em oposição virtual a alguma coisa que seria a verdade” (FOUCAULT, 2008, p. 7). Para Foucault o problema não era “de se fazer à partilha entre o que num discurso releva da cientificidade e da verdade e o que relevaria de outra coisa; mas de ver historicamente como se produzem efeitos de verdade no interior de discursos que não são em si nem verdadeiros nem falsos”, isto é, é preciso constituir um novo regime de verdade (FOUCAULT, 2008, p. 7); b) a ideologia como falsa consciência refere-se necessariamente a um sujeito; c) existe sempre implicado nesta noção a oposição binária entre infra-estrutura e superestrutura, sendo a consciência sempre determinada pelas condições econômicas de existência.

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One response to this post.

  1. Posted by Alcides Renofio Neto on 5 de dezembro de 2011 at 3:53 PM

    Grande Jonas!

    Responder

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