O MUNDO CONTEMPORÂNEO E A CRISE AMBIENTAL

Mônica Monteiro Garavello

Na década de 1950, quando surgiram os primeiros aparelhos de televisão disponíveis ao público, alguém já disse que isso seria a perdição da humanidade. Tal suposição continha, sem o saber, um caráter não só futurista como também capitalista, e isso, sem dúvida, levou a uma onda de consumismo altíssima em um espaço de tempo ínfimo, de pouco mais de meio século, se for levada em consideração a idade do planeta Terra. Entretanto, a cultura do consumo não é algo que se criou do dia para a noite, ela tem se desenvolvido por séculos e a mídia veio a ser uma de suas principais fontes de divulgação.
O surgimento da televisão foi um marco de mudança de hábitos culturais arraigados no seio da sociedade, pois se antes as pessoas se reuniam para conversar, jogar ou cantar, elas passaram a se reunir em volta do televisor, de modo que a conversa e o canto pararam e os jogos e as brincadeiras passaram a acontecer em um outro contexto. O paradigma da sociedade atual é o do consumo, o que afeta não só as tradições, mas também os valores das pessoas, que possuem níveis elevados de materialismo, sendo este perpetuado de geração a geração. Não é sustentável a um planeta com recursos finitos definir felicidade e sucesso através do quanto uma pessoa consome.
Ao longo da história, com o aumento populacional e uma base fundiária fixa, o caminho mais óbvio a ser seguido por um jovem, que era herdar a terra de seu pai e continuar a cultivá-la para o seu sustento e o de sua família, deixou de ser o caminho a ser seguido. A vida rural passou a não prover a sobrevivência das pessoas e elas começaram a se aglomerar urbanamente e a buscar novas formas de autossatisfação, através da aquisição e uso de bens de consumo cada vez mais sofisticados. Assim, instituições sociais dominantes em diversas culturas, como empresas, governos, meios de comunicação e educação passaram a ser os meios de disseminação das ideias consumistas dentro da sociedade na qual vivemos hoje, em que a terra tem um valor econômico muito alto e poucos podem adquiri-la, enquanto os bens de consumo possuem uma vida útil curtíssima, sendo a cada dia substituídos por novos modelos “mais evoluídos” tecnologicamente, como por exemplo automóveis, eletroeletrônicos e celulares, dentre outros. Com isso, gera-se ao ambiente um descarte de materiais de todos os tipos, desde resíduos orgânicos até aparelhos considerados sucatas, por falta de peças que os façam funcionar.
Nesse mar de consumismo e desperdício que assola o planeta e seus recursos naturais, através dos quais se produzem tantos novos bens, fisicamente obsoletos, os seres humanos se julgam muito importantes, únicos em termos de respeito, desde que possuam elevados níveis de bens materiais. Não só os outros seres vivos como também o ambiente são relegados à mera condição de servidão e exploração. Irônica é a falta de percepção de uma sociedade que se vê como algo à parte do meio natural, que não se dá conta das mudanças climáticas, das grandes catástrofes naturais e de sua vulnerabilidade enquanto espécie vivente neste planeta.
Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, fez algumas considerações muito atuais sobre o valor da terra, após Franklin Peirce, então presidente dos Estados Unidos, ter proposto a compra de seu território. Em sua carta ele diz que o homem branco não compreende os costumes do homem vermelho, já que a terra para o branco, assim como os animais, são coisas que podem ser saqueadas e depois comercializadas. No estilo de vida “civilizado” não há lugar quieto nas cidades, o ruído parece só insultar os ouvidos, as pessoas não sentem o ar que respiram, são insensíveis ao mau cheiro, e os animais são maltratados em prol do progresso e da farta alimentação à base de carne. Ele então conclui que se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito e que a terra não pertence ao homem, muito pelo contrário, é o homem quem pertence à terra.
Desse modo, para onde foram as florestas abundantes, a água limpa, a terra boa a ser cultivada para alimentar as populações, a diversidade biológica da fauna e da flora, e o modo de vida simples, cuja felicidade independe de tantos bens materiais? Foram se perdendo ao longo do caminho, assim como se perderam as noções básicas de respeito e bom senso diante de situações diversas, causadas pelo afã de uma sociedade cujo paradigma é o consumismo.
O mundo atual gira em torno das grandes corporações, que em troca da tecnologia usurpam a mão-de-obra barata dos países que fazem parte de um novo modo de vida moderno colonial. Nele se inclui o agronegócio, mantenedor dos latifúndios para exportação de produtos que mantêm o estilo de vida dos grandes países do hemisfério norte, cuja pegada ecológica se traduz na existência de recursos naturais de pelo menos três planetas Terra para continuar se sustentando. A manutenção do capitalismo, que gera tantos acordos e uniões econômicas, é o principal objetivo das nações que se mantêm no patamar mais elevado da classificação desenvolvimentista.
Se o planeta entrar em colapso, o que será da vida sobre a Terra? Quantos pensam sobre isso na sua vida diária, em que o tempo parece muito curto para tantas coisas a serem realizadas? Tudo sempre começa na consciência de cada um, e a família, sendo ainda a base da sociedade, já que é nela que o indivíduo nasce, deveria ser a primeira a dar um bom exemplo, pois as crianças, como os filhotes de qualquer espécie animal, aprendem por observação, sem ainda deterem um conhecimento de mundo que as capacite a ter discernimento sobre aquilo que vêem. Contudo, algumas instituições sociais são tão imprescindíveis quanto a família, que são o governo e a escola, entidade responsável pela disseminação dos programas educacionais. Como um ciclo de vida amplamente interligado, não há uma ação em um lugar isolado do mundo que não tenha uma repercussão mundial, mesmo que isso demore anos para se disseminar.
O mesmo veículo de comunicação que propagou tão rapidamente os ideais capitalistas/consumistas tem a grande oportunidade de propagar a reversão desses ideais para os de uma sociedade que se enxergue enquanto parte de um mundo maior, o da natureza. Pequenas ações conjuntas para um planeta sustentável com vistas à manutenção da vida das futuras gerações estão sendo de extrema importância tanto local quanto internacionalmente. É fato que mudar os hábitos culturais de um povo não é tarefa pequena nem fácil, ainda mais porque as pessoas se acostumaram a consumir muito, a querer um emprego que possa sustentar seus padrões atuais de vida, a ver na parca democracia a que estão sujeitas, projetos possíveis nunca saírem do papel, a conviver com a violência e a desigualdade social que ronda os centros urbanos e se tornaram cúmplices desse estilo de vida caótico e apressado.
Sair desse modo de vida, procurando agir de modo a integrar o meio ambiente e a retirar dele o essencial à sobrevivência ao invés de destruí-lo, é algo que pode ser construído por cada um em seu dia-a-dia, seja no ambiente doméstico, de trabalho ou de lazer, e isso atinge a todos em todas as classes sociais, desde os grandes empresários, os políticos e os economistas até o pequeno servidor, ou aquele que muitas vezes trabalha à margem da sociedade. Da consciência individual de sustentabilidade para a consciência coletiva, da ação solitária à ação local, para melhora da qualidade de vida da comunidade e do meio ambiente que a cerca, tudo sempre vai depender da consciência de cada um, e este é um ciclo que tem início no nascimento, se perpetuando ao longo da vida e continuando através das futuras gerações, sempre guardando que de fato é a terra que acolhe cada ser vivo que habita sobre o seu seio.

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