Mística da Terra

Alex Arbarotti

Quando algumas pessoas vêem nos acostamentos das rodovias barracas de lonas pretas é inevitável pensarem nos “sem terra”. Não é incomum o comentário pejorativo e/ou espantado de que são vagabundos ou loucos. Mas de verdade o que faz pessoas deixarem a sua “zona de conforto” e se embrenharem na luta por um pedaço de chão e irem em busca da realização de seu projeto de vida? O que sustenta as dificuldades e as pelejas da conquista da terra? A resposta é: a mística.

Não vou aqui fazer digressões e especulações sobre o conceito de mística, mas vou relatar o que experimentei dessa mística a alguns meses atrás quando fazia pesquisa com militantes de vários movimentos sociais de luta pela terra reunidos na cidade de Presidente Prudente – SP para o curso especial de geografia.

Na ocasião tive a oportunidade de conhecer militantes que fizeram de sua vida um verdadeiro sacerdócio a causa. Falavam com convicção e amor, rebeldia e ternura dos bons e maus momentos que passaram nesses anos de luta. Fiz a pergunta: “O que de positivo e de negativo mais te marcou nesses anos de luta?” Jonas, militante a 22 anos respondeu: “De positivo muita coisa, mas de negativo nada, pois até mesmo das coisas ruins que acontecem a gente tira força para lutar”. E em seguida me relata com lagrimas nos olhos o fato de ter perdido um companheiro em um confronto. Os companheiros que tombam são parte fundamental da mística do movimento, pois estes são exemplo e força para os que ainda de pé resistem. Assim como na igreja católica primitiva o sangue de cada mártir era considerado semente de cristãos, também no movimento a cada um que tomba dez se levantam.

Diante disso percebi que a mística é a seiva da vida do movimento, é força vital e misteriosa que une elementos políticos, religiosos, morais, históricos e ideológicos expressados em cantos, poemas, fotos e símbolos. A celebração destes elementos constitui a alma da esquerda e faz com que homens e mulheres acreditem em seus sonhos, tenham esperança e acreditem na vitória. É espantoso estar diante de homens e mulheres que perderam companheiros, foram cativos, trazem as marcas das balas da repressão em seu corpo e não se amedrontam. Vigilantes perenes que não perguntam como e aonde vão, mas simplesmente vão. Assim como os primeiros cristãos, que cantando se dirigiam ao martírio e fazia com que muitos viessem em seu rastro, eles seguem com essas marcas no corpo e na alma, de cabeça erguida e peito aberto convocando, com seu exemplo, a se incorporarem nesta procissão todos que tremem de indignação frente a injustiça e sonham com um mundo mais justo de homens e mulheres livres.

Este slideshow necessita de JavaScript.


Anúncios

One response to this post.

  1. O que me chamou a atenção neste texto é que não foi abordado se o MST está certo ou errado. Acredito que assim seja melhor mesmo, porque as opiniões são contraditórias. Sem entrar neste terreno, posso dizer que, lendo o artigo, lembrei-me da Guerra do Contestado, a maior guerra entre brasileiros em território brasileiro que aconteceu e que, infelizmente, é esquecida. A luta pela terra foi um elemento importante nesta guerra, que teve vários outros vieses e aconteceu entre 1912 e 1916. Ou seja, praticamente 100 anos depois, ainda vemos a mesma situação no nosso país. Quando será que isso vai mudar?

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: