Um tanto de terra

Alex Arbarotti

Toca o telefone, minha mãe se dirige para atendê-lo.

– Quem é?

Do outro lado uma voz de secretaria pergunta:

– Bom dia! O que a senhora é de Otávio Elias?

Minha mãe titubeia por um instante e sente um desconforto, pois seu pai havia morrido a quase três anos. E então responde incisiva:

– Sou filha, por quê? De onde fala?

– Minha senhora aqui é do cemitério de Cravinhos. Eu tenho seu telefone aqui pra contato. É o seguinte, faz quase três anos que seu pai foi enterrado aqui não é?!

– Sim!

– Então, não sei se a senhora se lembra, mas ele foi enterrado em uma terra da prefeitura e nesses casos se a família não adquirir a terra nos tiramos depois colocamos em um saco e depositamos em uma gaveta.

Por um instante a mente da minha mãe retornou ao fadítico dia da morte de meu avô. Lembrara que meu avô alguns meses antes de morrer, já adoentado, expressara o desejo de ser enterrado na cidade de Cravinhos, onde havia nascido e crescido. Lá, porém a família não tinha um tumulo, e no desejo da eternidade daquele que se ama ninguém quis ir atrás de um lugar no cemitério dessa cidade. Talvez pensassem que se fossem atrás estariam querendo a morte do amado. Pois bem, no dia em que o suspiro da vida o abandonou, e me lembro que alguns passos no corredor do hospital separaram esse fato das vistas minhas e de minha mãe, se lembraram que tinham que levar o corpo sem vida para a terra em que ele surgiu para vida, além é claro de todos os preparativos do velório.  Ela se lembrou então que havia ligado para o cemitério e disseram que poderiam fazer o enterro em uma terra da prefeitura e depois com mais calma poderiam comprar a terra, só que o prazo para esse procedimento era de três anos. Voltando ao mundo real minha mãe responde:

– Não! Nós vamos comprar sim! O que tenho que fazer? Quanto é?

– Então, a senhora tem que vir até aqui para fazer os papeis e pagar 200 reais pela terra, mais umas taxas pela papelada de transferência do nome da terra pra senhora.

– Até que dia tenho que ir fazer isso?

– No máximo até a próxima sexta feira!

Minha mãe pensou rapidamente e viu que tinha uma semana pra fazer isso!

– Tudo bem então, eu apareço aí até essa data. Obrigado!

– Que nada é a gente que agradece! Até mais!

Na mesma hora em que desliga o telefone minha mãe liga para o meu pai para informá-lo que na próxima sexta ele não vai trabalhar, pois vai com ela até Cravinhos resolver esse problema. Logicamente que meu pai não tem escolha a não ser dizer que tudo bem. Minha mãe também inicia um processo chamado de difusão da informação, pois esse deve ser o modelo para informar todos os seus doze irmãos do que acontece. Então liga para os irmãos mais próximos, informa o que aconteceu e já esclarece que vai resolver na próxima semana. Alguns se vêem na responsabilidade de contribuir na compra e envia algum dinheiro, “alias o pai fez tanto pra gente né! Sofreu tanto pra criar a gente, é o mínimo que a gente faz!”

E assim se fez! Na sexta meu pai e minha mãe foram até o cemitério, pensando que em alguns minutos resolveriam isso. Entretanto, a burocracia faz de uma coisa simples uma epopéia. No cemitério pegaram um papel para irem à prefeitura pegar uma guia a ser paga no banco. Depois levaram essa guia de volta até à prefeitura, de lá então pegaram um papel e levaram ao cemitério para enfim receberem uma placa para ser colocada junto a terra dizendo que aquela não é da prefeitura, mas de “propriedade particular”. Tudo isso levou uma tarde pra se concretizar.  Minha mãe então, enfiando a placa na terra soltou um desabafo:

– Enfim meu pai o senhor tem um pedaço de chão! O senhor que trabalhou tanto em sítios e fazendas plantando, colhendo, tocando gado, tirando leite e nunca teve uma terra. Alias a única terra que tinha era aquela que sujava a roupa e entrava por entre as unhas. Eis a parte que lhe cabe desse latifúndio. Uma terra medida. Dois metros, por três metros. Onde já se viu, queriam tirar o senhor da terra e colocar em uma gaveta de concreto. Agora o senhor que sempre viveu da terra pode ficar tranquilo que não mais vai te separar dela. A união agora é eterna!

Depois disso ficou mirando a terra que agora é meu avô e que é de meu avô. Meu avô não tem tumulo porque ele disse certa vez que não queria nada pesando encima dele quando estivesse descansando. Lá existe somente uma cruz, que lembra a fé professada incontáveis vezes pelos estradões nas folias de Santos Reis, e agora uma placa garantindo a propriedade da terra, que nunca teve. Já cansada do estafante dia minha mãe foi cantarolando baixinho um poeminha que eu tinha feito no dia da morte do meu avô:

“Meu avô, quem diria

Aonde ia levava tudo que tinha:

Bota, chapéu e tabacaria

Morreu dizendo:

Leve a vida cantando e com alegria!”


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2 responses to this post.

  1. Querido Alex, essa sua homenagem demonstra o quão rico era seu avô por deixar de herança um neto tão maravilhoso.
    abs mirian

    Responder

  2. Posted by pedro meinberg on 30 de abril de 2011 at 6:39 PM

    lembro do nascimento deste texto…
    abraço.

    Responder

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