Mais do mesmo da tragédia em Realengo?

 

Alex Arbarotti

Pedro Meinberg Filho

 

 

O escritor uruguaio Eduardo Galeano disse: “Este mundo está armado assim: é um tecido de encontros e desencontros, de perdas e ganhos. E o melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. E cada perda corresponde um encontro que ainda não tive”.

Realmente o ser humano é de uma potencialidade racional incrível. Tanto é que ele foi capaz de produzir de forma impressionante inovações tecnológicas inimaginadas, que ocorreram num ritmo frenético nos últimos tempos. O que se fez na última década não foi possível em séculos! De verdade houve êxito no projeto moderno de desenvolvimento tecnológico. Mas “isso que se chama desenvolvimento, crescimento, se ocupa de apequenar nossa alma” afirma Galeano. Os seres humanos se desencantaram com o mundo e passaram a viver um real aborrecido e vazio. O projeto moderno de homem inteligente, levado ao seu extremo êxito com a formação de um homem muitíssimo inteligente na realidade mais uma vez demonstra seu fracasso. A contemporaneidade constituiu na verdade um homem demente.

Nesse sentido, o massacre ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 7 chama atenção. A pressão por um mínimo rendimento escolar e posteriormente um bom emprego, a coação por conquistar belas namoradas e sustentar oportunas amizades, a frustação de conviver em um lar desestruturado em comparação com o padrão de uma família “normal”, cedo ou tarde levaram esse jovem a dar um basta nesse meio hostil que nunca fora sua morada. Como também não sabia para onde ir, resolveu pegar uma arma e sair atirando contra adolescentes da ex escola. Os adolescentes eram o alvo, talvez numa tentativa de vingança pela hostilidade de um meio que nunca o entendeu… Talvez uma chance de mostrar para todos a raridade de pessoa que era e sua potencialidade, porém, nunca ninguém quis pagar para ver e deu no que deu.

Propomos aqui outra visão daquela que vem sendo vinculada exaustivamente pela mídia, sustentada pela psiquiatria e psicologia forense tradicional. Visões que compreendem os indivíduos, independentemente das influências de seu meio social, com predisposições à “anormalidade” e a cometer crimes hediondos. A mesma sociedade que garante aprimoradas tecnologias não é capaz de proporcionar apuradas relações entre os indivíduos em vida coletiva. A atualidade produz um tipo de homem estático, acomodado, imobilizado e acima de tudo confuso e delirante. Assim, se não paramos de dar preferência a desenvolvimentos tecnológicos e não nos preocuparmos com o aprimoramento da humanidade enquanto seres que devem se respeitar em sua diversidade de raças, etnias, gêneros, opções sexuais e demais outras infinitas possibilidades de ser humano, ainda teremos que ficar chocados diante de mortes gratuitas. Esta última é de comoção nacional e internacional, mas quantas outras mortes ocorrem todos os dias ocultamente e silenciosamente, longe da grande mídia?

É necessária uma reeducação no olhar para perceber a alteridade humana, ou mesmo as pequenas diferenças na pessoa ao lado, enquanto uma possibilidade de também ser humano. O sujeito pode ser tímido, com poucas palavras, isolado, mas precisamos reestruturar nossas instituições e diminuir nossos preconceitos para alcançar pessoas que apresentam um comportamento “diferente”: saber o que elas pensam, o que entendem do mundo e o que esperam dele, perguntar sobre os seus possíveis, seus desejos, respeitando a peculiaridade de cada modo de ser e, quem sabe, evitar de pequenos bullyings à tragédias como esta. Mas nesta vida é tanta informação, tantas regras e posturas naturalizadas que o diferente passa todos os dias diante de nós e o desconsideramos – ou pior, zombamos da diferença.

Fato triste e lamentável, mas não o primeiro e infelizmente não o último. Estamos criando nossa destruição? Estamos à beira do fim, mas não no fim, então as palavras de Eduardo Galeano ainda nos dá alento: “A persistência humana nesta mania, às vezes inexplicável de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não de pouquinhos e o inferno da maioria. Afinal somos muitíssimos mais do que dizem que somos!”.

 

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