“Cidadão de papel”

 

Alex Arbarotti

 

Não é de agora que o planeta está sofrendo com a sistemática extração dos recursos naturais sem nenhum critério. Sempre em busca de lucros e consumidores as empresas capitalistas consomem recursos naturais como se eles fossem eternos. Diante desse quadro surgiu a onda da reciclagem, como uma forma paliativa ao extremo uso dos recursos naturais. A ideia é reaproveitar os recursos retirados, diminuindo assim o impacto no planeta. Essa é uma ótima iniciativa, entretanto gostaria de chamar atenção para o outro lado dessa questão.

Como sabemos o capitalismo faz de tudo um bom negócio para ganhar dinheiro. E com a reciclagem não é diferente. Várias empresas se lançam como ecologicamente correta dizendo que usam materiais reciclados para produção de seus produtos. Outras empresas se especializaram em materiais reciclados e fazem negócio na venda e compra desses materiais. E é justamente aqui que gostaria de chamar atenção.

Se não existe nenhuma política de recolhimento desses materiais como eles chegam a essas empresas? Isso não é segredo para ninguém! Quem nunca viu pessoas com carrinhos andando pela cidade recolhendo todo e qualquer tipo de reciclado? Eu mesmo me deparei com um catador um dia desses que me parou para perguntar quanto era quarenta quilos vezes quinze centavos. Eu fiz a conta para ele e disse: “São seis reais”. Ele então me respondeu: “Então tá certo!”. Curioso eu lhe perguntei qual a razão da conta e ele me disse: “É que eu fui vender o material que recolhi pela rua hoje e deu esse tanto, pensei que tinha sido enganado, mas a conta tá certa mesmo”. Questionei a ele a quanto tempo estava recolhendo e ele me disse que estava andando pela cidade desde as seis da manha. Já eram cinco e meia da tarde!

Pois bem, com isso podemos pensar que a reciclagem, tão importante para salvar o planeta da exploração dos seus recursos naturais, se dá através da exploração de homens e mulheres que passam horas por dia, a peregrinar pelas ruas das cidades, em busca de recicláveis, ou ainda, vivem situações subumanas em grandes lixões. Essas pessoas não têm seus direitos trabalhistas garantidos, não tem assistência médica e são pessimamente remunerados chegando a não ganhar um salário mínimo por mês.

Enquanto isso os empresários do setor, apoiados pela mídia acrítica, discursam como arautos da salvação do planeta e enriquecem a custa de muito sofrimento e exploração de pessoas que são obrigadas a viver de forma precária. O sistema capitalista faz de tudo um negócio, vale até dizer que vai salvar o planeta, mas sempre a custa de muita exploração de homens e mulheres em situação de vulnerabilidade. É bom pensarmos que por detrás de todo produto reciclado que compramos para ajudar o planeta pode existir muita exploração humana.

Veja também Cidadão de papel da banda “O teatro Mágico”

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