Escravos do capital!

Cassia Lussani


Muitos investimentos governamentais hoje estão se focando na chamada agricultura familiar. É apontada como a forma produtiva que melhor abastece o mercado dos artigos básicos do consumo humano. Porem, essa forma de produção encontra-se em constante risco diante da forma como se desenhou o mercado nas últimas décadas.

Em um processo que vem desde a segunda metade do século XX, a mecanização e a industrialização no Brasil subjugaram as formas mais artesanais do trabalho. Os investimentos na compra de insumos, que cresceu absurdamente nos anos de 1980/90; e de maquinário pesado para o plantio, a manutenção e a colheita, retiraram do homem o papel fundamental na agricultura como agente do trabalho.

Outra mudança que ocorreu no papel da agricultura foi a transformação do objetivo da mesma. Tendo como objetivo desde o seu surgimento a produção de alimentos para a alimentação humana, hoje essa produção se divide entre abastecer geladeiras e carros. Isso devido a popularização e incentivo ao uso dos combustíveis renováveis.

Percebemos, portanto, que a função da agricultura está passando por transformações ditadas pelas leis de mercado e o que será produzido depende das variações pelas quais este passa. Hoje, quando se fala em agricultura familiar, tem-se em mente que a produção está inserida em uma lógica comercial de rentabilidade e não na venda do excedente produzido.

O que quero questionar nesse momento é: onde está a autonomia do produtor rural hoje? É possível produzir fora da lógica de mercado?

Quando analisamos essa parcela da população que persiste em continuar no campo e que busca formas de financiamento para tal, vemos que seus passos são designados pelos interesses capitalistas, sendo apenas mais uma peça da engrenagem do sistema.

A possível autonomia que se sugere ao camponês se mostra inexistente, uma vez que para conseguir manter-se na terra e sustentar sua família – e esse sustentar coloco como com alimentação, vestimentas, acesso á saúde e lazer – este precisa realizar escolhas certas. O que produzirá, como irá produzir e se irá ter condições de mercado favoráveis para a venda, tudo isso sendo pensado com a perspectiva de que as condições climáticas serão favoráveis num prazo de meses. Caso não acerte na escolha, o que lhe resta são dívidas com as agências financiadoras da produção e um período de dificuldade para a família, que se pretende acabar com a próxima produção que está sendo novamente pensada e financiada.

Acredito que no contexto em que estamos inseridos, o ideal de liberdade do homem camponês, aquele que faz o seu próprio tempo de trabalho, tem autonomia sobre o meio de produção, decide sobre os rumos da própria empresa; este não alcança os agricultores que arduamente servem as nossas mesas.

 

Imagem do retirada do site: http://www.mmcbrasil.com.br/

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